
Hoje apeteceu-me cantar. Já há uns tempos que não o fazia.
A última vez foi em Julho, no casamento da D.ª Mimi. Cantei durante a missa e também dei o ar da minha graça, durante o copo de água, juntamente com o grupo de lateiros e lateiras que fazem o favor de ser meus amigos, desde os tempos de Faculdade.
Às vezes sou como que compelida a fazê-lo, sem que tenha plena consciência disso.
Hoje foi um desses dias. Apeteceu-me invadir a Igreja e satisfazer aquele estranho desejo.
O Padre Manuel não estava, mas eu atraquei-me ao orgão como se fosse a última coisa que ia fazer hoje e comecei a cantoria, para espantar aquele mal que de vez em quando me assalta de mansinho.
A Igreja estava feérica, iluminada apenas por alguns círios e uma luz ténue, proveniente de uma das janelas da sacristia.
Não estava mais ninguém.
Só eu.
Comecei por uma Avé-Maria muito tímida, que se foi elevando ao sabor dos sentimentos.
Quando canto a Avé-Maria, sinto-me como que rodeada por algo que não sei explicar. É uma paz, uma tranquilidade, um sentir que existe qualquer coisa para além de nós, que vale e vincula independentemente daquilo que possamos sentir.
No calor da emoção, dei conta que Ele estava ali. Observava-me de pé, sereno, olhando-me com os Seus olhos azuis, como se fossem lagos.
As Suas vestes brancas adejavam e aquele olhar tão doce, debruçado sobre mim, dizia-me que não era a mim que vinha buscar.
"Só vim ouvir-te cantar", disse-me Ele, ternamente.
Acordei sobressaltada com o Padre Manuel a chamar por mim. Tinha adormecido na Igreja, enquanto esperava por ele, para combinarmos a festa do Presépio de Natal.
Senti um vazio enorme a rasgar-me o peito.
Eu estava preparada.
Mas Ele não me quis.









