
ONTEM NÃO POSTEI.
FEZ UM ANO QUE MORRI DE MORTE ESTÚPIDA.
Encontrava-me na fila das Finanças para liquidar o IRS, depois de ter tirado um ticket que me fez logo adivinhar uma longa tarde de espera.
Tudo à minha volta estava carregado: O tempo, quente cum'ocaraças. Os semblantes. A vida.
"Ela", aproveitando-se da minha fragilidade, abraçou-me com o seu manto negro.
Tentei resistir-lhe, buscando na minha bolsa, os meus comprimidos SOS. Não consegui!
Entrei no seu túnel de luz e senti-me leve. Tão leve!
Rocei a perfeição e senti-me eu. Finalmente era Eu!
Conseguia ver através das sombras reflectidas nas paredes do túnel, aquela figura imponente que julguei ser Jesus Cristo ou o Diabo.
E senti uma tremenda angústia.
Permaneci no tempo e na luz. Quis ficar para sempre!
O meu Anjo da Guarda ucraniano não deixou.
Acordei no hospital, três dias depois de ter morrido e julguei-me no paraíso.
Um Anjo de olhos azuis como se fossem lagos, estava debruçado sobre mim e falava-me numa língua que eu julguei ser a dos Anjos.
Soube que foi ele o meu Anjo da Guarda. Aquele trolha ucraniano de olhos lindos como o azul do céu, salvou-me de morrer, quando tenho ainda tantas coisas para fazer, tantas coisas para dizer, tanto para dar.
Médico no país que o viu nascer, trolha explorado no país que o acolheu.
Teve a percepção que eu apertava na mão esquerda os comprimidos que não consegui levar à boca. Prontamente reconheceu os sintomas de um AVC e iniciou uma série de manobras que o INEM, quando chegou, se limitou a completar.
OLEG, de seu nome. O médico- trolha explorado.
Não falava português, o meu Anjo da Guarda.
Tomei a meu cargo a sua aprendizagem da língua portuguesa e, juntamente com alguns amigos, comecei a tratar dos documentos, para que pudesse fazer o exame à Ordem dos Médicos.
Um ano depois, o Oleg fala e escreve quase fluentemente a língua portuguesa e tem o exame à Ordem marcado para Outubro.
Foi o mínimo que pude fazer.
Em Outubro lá estarei a apoiá-lo.
É O MEU ANJO DA GUARDA!