quinta-feira, 12 de julho de 2007

SINTO VERGONHA!


Possuo uma segunda habitação numa zona simpática da cidade do Barreiro, onde tenho raízes profundas. Não deixo, contudo, de ser uma "estrangeira", já que pouco disfruto da prerrogativa que os meus avós maternos me concederam, ao contemplar-me no seu testamento com a casa que foi sua durante longos anos e onde foram muito felizes.

Sempre que posso, lá vou eu visitar a família: as tias, os tios, as primas e os primos e a minha velha ama, para não pensarem que me tornei importante demais. Eu curto a família.

Foi numa dessas visitas de médico que me dei conta que tinha a despensa quase vazia, eu moçoila que sou tão dada às lides caseiras e aos cozinhados.

Apetecia-me confeccionar um prato tipo "à lavrador" mas, olhando para o frigorífico e para a despensa, dei-me conta que estive ausente tempo demais e não tinha os ingredientes necessários para o cozinhado que me propunha confeccionar.

Vai daí, desço as escadas toda lampeira e vou direita à mercearia da esquina, ao Senhor Joaquim, com o propósito de escolher um belo repolho e outros ingredientes para fazer o tal manjar tipo "lavrador".

Confesso que tive sempre mais olhos que barriga e, pensando bem, talvez tivesse sido melhor deslocar-me ao Leão D'Ouro e empanturrar-me lá com uma bela refeição de peixe, que só eles sabem confeccionar.

Escolhi o meu repolho e o resto dos ingredientes que precisava. Paguei e comecei a retirar as folhas que considerei menos viçosas, para não levar lixo para casa, e a colocá-las num cesto que o Senhor Joaquim tem na loja para esse efeito.

De repente, reparo que um Senhor muito velhinho, de aspecto miserável, estava a remexer no cesto e a recolher as minhas folhas velhas e a fruta podre que entretanto o dono da loja também lá tinha colocado, dizendo que davam uma boa refeição.

Fiquei chocada. Já não tive coragem de levar para casa as compras que tinha feito.

O velhote agradeceu com um largo sorriso desdentado e confidenciou-me:

"Sabe, eu já vivi muito bem. Tinha pão, leite e manteiga todos os dias. Agora já não posso trabalhar, porque tenho um problema nas costas e a minha mulher também está doente e acamada já há dois anos. Costumo vir aqui porque o Senhor Joaquim deixa-me escolher a fruta "tocada" e as folhas velhas que dão uma boa sopa. Depois vou à padaria e lá há sempre quem me dê dois pãezinhos. Com a sopa é uma bela refeição".

Nessa noite tive insónias.

Em pleno Século XXI e com um Governo Socialista isto jamais deveria ser permitido acontecer.
Sinto vergonha por ter a possibilidade de ter comida para comer enquanto aqueles dois velhinhos se contentam com o lixo dos outros.

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