sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O REGRESSO DO PROFESSOR

BLOGUICES



Estabelecemos estranhas relações na blogoesfera.
A ausência de presença física, de troca de olhares, de expressões faciais que acompanhem as manifestações de ideias, entre outras coisas comuns às normais situações inter-pessoais, podem criar situações virtuais que, apesar de complexas, têm a solidez de bolas de sabão.
A manutenção de relações neste espaço virtual de convivência pacífica deve, por isso, fazer-se sempre acompanhar de uma saudável sensatez e de uma permanente consciência de que os outros, apesar de pessoas como nós, aqui não são mais do que a imagem que nós deles criamos, com base no que escrevem e na forma como o fazem.
São bastante comuns as situações de enorme devoção relativamente a determinados bloggers e de pessoas que os idolatram com base naquilo que escrevem. Criam-se verdadeiras cortes na blogoesfera cujos súbditos babam a cada palavra e sucumbem a cada frase que é escrita.
Mais tarde, com o passar do tempo e com o hábito, tudo se desvanece, como todas as coisas elementares desta vida, que não são solidamente edificadas.
Nas caixas dos comentários encontram-se muito frequentemente outro tipo de relações. Algumas são verdadeiras guerrilhas suburbanas, com braços de ferro a demonstrar que há alguém que é sempre capaz de pôr a fasquia mais baixo do que nós pensávamos.
Outras, são autênticas relações de sedução on-line: piscadelas de olho virtuais, subreptícios apalpões à homem do Martini, invisíveis marcas de baton cor-de-rosa nos colarinhos, imaginários dedos que enrolam madeixas de cabelos sobre ombros desnudos e quiméricos beijos à cinéfilo.
Há também quem crie verdadeiras embirrações relativamente a determinadas pessoas apenas pela leitura dos seus textos. De uma palavra, de uma frase, de uma ideia, nascem sérias aversões, por vezes até ódios de estimação.
E em que se fundamentam esses sentimentos? Em nada, porque são ilusões e, quando somos confrontados com a realidade, frequentemente esses sentimentos se desvanecem mais depressa do que apareceram.
Pela parte que me toca, já me aconteceu criar relações de ódio, de amizade e até de namorico virtual, que vou alimentando de forma egocêntrica apenas para quebrar um pouco a solidão e os tempos mortos.
Curiosamente até já tive quem me insultasse on-line, porque uma das minhas interlocutoras resolveu ter ciúmes de mim por causa das minhas intervenções “mafarricas”.
Achei esse fenómeno curiosíssimo. Para essa pessoa, eu constituía uma ameaça sem o ser na realidade.
Mais recentemente, por exemplo, criei uma relação muito engraçada com o VTM, proprietário virtual do Barreiro Velho, embora ele nem sequer saiba de nada.
Ele escrevia a maior parte dos seus “posts” à noite e eu comentava e ajavardava o seu blogue durante o dia.

Era a típica relação da mulher-a-dias com o guarda-nocturno.

Considero-o um amigo, apesar de não o conhecer como pessoa.

É o meu “vizinho” virtual porque gosto muito de ter amigos, de ter vizinhos e sobretudo de comunicar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

CONTRA-INFORMAÇÃO



As notícias sobre a possibilidade de implementação efectiva do Mercado Marquês de Pombal no Barreiro Velho, que são publicadas pela imprensa regional ou criticadas ou apoiadas em blogues, nunca falam do que mudaria na vida de centenas de pessoas, com a sua realização.

Muito raramente se fala dos benefícios ou dos malefícios que ele traria para a cidade e muito menos se explica o motivo por que se torna urgente encontrar uma solução a contento.

Também as opiniões contrárias não são fundamentadas e tem-se verificado que é mais fácil criticar por criticar ou apenas para ser do contra.

Na maioria das vezes, as opiniões versam o tom de criminalização das pessoas que dão origem a movimentos sociais que lutam para que tal projecto se torne realidade, desqualificando todos aqueles que o defendem, sejam estes cidadãos comuns de dentro ou de fora dos partidos, das instituições ou da polis como aglomerado urbano.

Com o tratamento que tem sido dado em vários meios de comunicação, cria-se no imaginário da população do Barreiro a ideia de que o trabalhador feirante é vagabundo, arruaceiro, traficante ou bandido, no mínimo, usurpador dos espaços que os elitistas pretendem reclamar como um exclusivo e uma prerrogativa só seus.

Quando o homem ou a mulher feirante é personagem de uma matéria de jornal ou de blogue, lá está por causa da sua pobreza, da sua miséria. Nunca ou quase nunca merecem mais do que poucas palavras por serem protagonistas de outras histórias que também merecem ser contadas: a sua capacidade de inventar, de produzir, de fazer cultura, de resistir, de amar, de criar bons filhos, de contestar. O mesmo acontece com os homens e mulheres trabalhadores que vivem em Bairros como o das Palmeiras, no coração do Barreiro Velho e que são quotidianamente apresentados como vagabundos, traficantes e consumidores de drogas.

Não podemos segregar a pobreza nem transformar o Barreiro Velho naquele ghetto que tanto preocupa aqueles que preferem fazer daquela zona da cidade um condomínio fechado, de luxo, povoado de moradias de estilo duvidoso, que nada têm a ver com a traça dos edifícios envolventes.

Temos de ter em conta a vida das pessoas que lutam honestamente pela sua sobrevivência e que, através do seu trabalho, constroem um país mais humano e mais justo, que ajudariam a trazer movimento ao Barreiro Velho e a reabilitá-lo como zona histórica.

O Barreiro Velho está em ruínas graças à omissão de todos nós, durante anos a fio.

Quem tem medo do Mercado Marquês de Pombal?

Que outros interesses estarão por detrás de tanta desinformação?

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

MEDITANDO...


Em Portugal inovar torna-se difícil porque somos um país de hábitos e somos avessos à mudança, por princípio. Temos medo do que não conhecemos e de tudo aquilo que não podemos controlar.
O discurso da inovação de âmbito estratégico, isto é, planeado, não tem impacto estratégico mas tem grande relevância para a criação de culturas de inovação que têm na sua base a criatividade individual.
Porque entendemos a inovação como uma faculdade apenas permitida a especialistas em questões para lá do alcance comum, cria-se a ideia de que inovar é prerrogativa de apenas determinados grupos.
Por isso nunca deixaremos de ser retrógrados porque nos auto-limitamos na criação das referidas culturas de inovação, na medida em que se estabelece à partida que a maioria dos cidadãos não têm qualquer responsabilidade na implementação de ideias vantajosas para a cidade onde vivem e trabalham. Esta perspectiva redutivista é duplamente perniciosa porque quem não participa na inovação não gera ideias relevantes e tende a opor-se mais facilmente às ideias dos outros.
Não fazemos, nem queremos que se faça.
A generalidade dos cidadãos do Barreiro tem ideias que podem contribuir para melhorar a cidade. Todas somadas podem representar uma mais-valia para a solução da deslocalização do Mercado da Verderena, com uma participação ampla de todos e de envolvimento alargado, já que o executivo camarário pouco ou nada tem feito nesse sentido.
A pressão para a geração de novas ideias força a curiosidade e o interesse, impedindo a acomodação e o “deixa andar”.
A ideia de que todos devem contribuir para melhorar o Barreiro Velho, através das suas ideias e sugestões pode, apesar da evidência das suas vantagens, ser mais fácil de apregoar que de praticar, porque pessoas habituadas a criticar e sem uma história de participação, podem simplesmente preferir o "statu quo ante", esse estado de letargia mental, durante o qual, noções como responsabilidade, melhoria, desafio e novidade constituem valores perigosos e indesejáveis, cuja impraticabilidade deve ser demonstrada pela prática. Ou seja, as ideias são grátis, mas nem sempre.

Há sempre quem pague muito caro por elas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

REFLEXÕES - MERCADO DA VERDERENA



Antes de partir para mais um ano de trabalho, não posso deixar de reflectir sobre o Barreiro e as suas gentes e sobre as influências que as boas ideias têm nas mentes sórdidas da cidade.

Por ter apoiado esta causa, tenho recebido mails e mensagens de fazer corar a melhor estrela de hard-core. Mas não me arrependo. Lutarei sempre pelas boas causas e nunca me deixarei intimidar pelos néscios.

A vaca, na religião hindú, é um animal sagrado.

Vou contar uma história que, espero, sirva de reflexão a todos aqueles que me têm bombardeado com insultos que em nada me afectam, porque eu sou um osso duro de roer.

Ao Dr. Cabós Gonçalves, dono da ideia, e a todos os outros que a apoiam, ficam os meus sinceros votos de sucesso e de que o Mercado Marquês de Pombal seja uma realidade, a bem do progresso, da solidariedade e da justiça social.


Lá longe estarei a torcer para que o Barreiro se reconcilie com a sua história.

" Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso,
que se dedicava a ensinar zen aos jovens.
Apesar da sua idade, corria a lenda de que ainda
era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro conhecido pela sua total
falta de escrúpulos, apareceu por ali.
Queria derrotar o samurai e aumentar a sua fama.

O velho aceitou o desafio e o jovem começou a insultá-lo.
Chutou algumas pedras na sua direcção,
cuspiu-lhe no rosto, gritou insultos, ofendeu os seus ancestrais.
Durante horas fez tudo para provocá-lo,
mas o velho permaneceu impassível.

No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado,
o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados, os alunos perguntaram ao mestre
como é que ele pode suportar tamanha indignidade.

- Se alguém chegar até ti com um presente,
e não o aceitares, a quem pertencerá o presente?
- A quem tentou entregá-lo, respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos.
Quando não são aceites, continuarão a pertencer a
quem os transportava consigo.

A tua paz interior depende exclusivamente de ti.
As pessoas não podem tirar-te a calma.
Só se tu permitires... "

sábado, 18 de agosto de 2007

A "RENTRÉE"


O neologismo "rentrée", importado do francês, vai entrando no vocabulário de todos nós que por esta altura voltamos ao palco da vida.
Regressamos mais escurinhos e um tanto gordinhos, como convém, para enfrentar o dia a dia que parecemos adivinhar.
Na actual conjuntura, todos reconhecemos que será preciso um novo fôlego para retirar Portugal do marasmo em que se encontra.
Pela parte que me toca, vou arregaçar as mangas e combaterei para que o nosso país tenha uma sociedade mais solidária e mais justa.
Este é o grande objectivo para o qual todos devemos colaborar, mesmo que tenhamos caminhos e propostas diferentes.
As férias terminaram e regressamos à cidade onde as ruas estreitas se tornam cada vez mais estreitas, onde o stress toma conta de nós e a melancolia se instala.
Retorno assim à minha "ribalta" em terras espanholas até que o meu colega Ramon se restabeleça e o meu Director me permita regressar à Lusa Pátria.

Já sinto saudades!

PRAÇA DE SANTA CRUZ



Gosto muito de cães mas acho que andamos a exagerar.

O fiel amigo por vezes funciona como um escape para algumas pessoas que têm nele a sua única companhia.

Mas muitas vezes cai-se no exagero.

Pessoalmente, acho uma tremenda sacanice dizerem-se coisas como: "Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais" ou "Não quero ter filhos. Já tenho cães".

Hoje, durante o meu passeio matinal no jardim da Praça de Santa Cruz, fartei-me de ver cocós e fiquei fora de mim.

Naquele instante pensei que em mais lugar nenhum estaria defronte de um cagalhão na calçada, de um monte de bosta pisado por alguém que passara alheio ao incenso merdoso que emanava do solo e que eu, a todo o custo, tentava evitar, fazendo gincana.

Será uma questão de civismo, por parte dos donos dos animais. Não podemos pedir aos cachorros que saiam à rua de pá e saco de plástico e apanhem eles os seus próprios dejectos.

Está na consciência dos donos, proceder de forma a minimizar as consequências das necessidades fisiológicas do seu animal de estimação, na via pública.

Não custa nada!

Os cidadãos do Barreiro agradecem!

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

GYPSIES, GITANOS, ZÍNGAROS, CIGANOS...


A origem dos ciganos permanece um mistério. O que hoje se sabe, graças a indícios nos vários dialectos do seu idioma – o romani – é que vieram do norte da Índia para o Médio oriente há cerca de mil anos. Trabalhavam como menestréis e mercenários, ferreiros e artistas, damas de companhia e aios. Os ingleses acreditando que os ciganos vinham do Egipto, chamaram-nos de "gypsies". Porém, os ciganos chamam a si próprios "roma", que significa "homem" no seu idioma.
No Barreiro formam uma comunidade que se dedica à venda ambulante e, à semelhança do que acontece em outras zonas do país, não são bem vindos.
A forma como encaram a cidadania, será uma das principais fontes de conflito porque a maior parte deles está apenas interessada em direitos, mas recusa-se a assumir deveres. Isso revela a natureza cultural do problema.
A sua cultura tem uma elevada matriz tribal com a apologia do grupo e do clã familiar.
O binómio direitos/deveres apenas é exequível no seio do seu grupo de pertença e por isso reagem sempre como uma tribo.
Encaram as leis e as instituições públicas como exteriores à sua comunidade, contra as quais se unem, para garantir a sua sobrevivência.
Mas em Portugal o problema não está apenas nos ciganos. Está também naqueles que os usam para levar a cabo as suas políticas demagógicas.
O papel das instituições de poder, nomeadamente o Estado, autarquias e forças policiais, tem originado a que haja uma espécie de cegueira institucional face aos problemas resultantes da sua especificidade como etnia, que já não é tão menor, como por vezes nos querem fazer crer.
A culpa não é só deles. É nossa também. Nós, os não-ciganos, pactuamos e demitimo-nos de fazer com que sejam cumpridas as elementares regras de urbanidade e civilidade. Deixámo-los entregues à precariedade, ao analfabetismo, ao insucesso escolar, à ausência de saídas profissionais que compensassem o desaparecimento progressivo das profissões tradicionais da comunidade, porque as Câmaras estão a acabar com os mercados tradicionais, por troca com as grandes superfícies. A venda ambulante é a única saída enquanto forma de auto-emprego, porque é um dos aspectos que singulariza a sua cultura e que levará algumas gerações a alterar.

Não sejamos hipócritas. Não queiramos culpá-los por todas as coisas más que existem à face da terra.

Quantos de nós não ouvimos, quando éramos crianças, aquela ameaça torpe:

“Olha que eu chamo o cigano!”

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

CRUZ!!! CREDO!!!!


IMAGEM DESCARADAMENTE "GAMADA" AO BLOGUE A VITRINE DO BARREIRO


Permitam-me algum diletantismo. Na verdade, apesar de ser católica, nunca fui grande especialista nessa matéria, mas assaltam-me muitas dúvidas.
Por influência da minha tia VIVI do Lavradio, acompanhei a Procissão de Nossa Senhora do Rosário, no dia 15 de Agosto de 2007.
A Procissão estava linda. Uns com um ar muito compenetrado, outros com um ar muito forçado e isso via-se a olho nú.
É verdade que o comunismo tem tido mais facilidade em conseguir cativar a população nas zonas de influência cristã.
Como alguém já disse, Jesus Cristo foi o primeiro comunista e a santidade não se pode medir a metro.
Mas há uma coisa que nunca percebi.
Na visão comunista, a religião teve origem como alienação provocada pela dor da injustiça de uma sociedade opressora e a sua existência, num regime comunista, denuncia a imperfeição desse regime ou a falsidade da visão Marxista.

Mas eles estavam lá todos. Os bons, os maus e os outros.

Vi-os com estes olhos que a terra há-de comer!

Alguns de óculos escuros, talvez com receio de que Deus os reconhecesse.

É muito triste constatar que a Procissão de Nossa Senhora do Rosário virou mostra institucional, como se de uma arruada gigante se tratasse.


AS BRIGADAS BREJNEV



Anda pelas bandas do Barreiro Velho, um interessante "Post"/Arruaça, sobre a árvore genealógica das alucinações esquerdistas e as suas possíveis ligações a Carl Schmitt ou a Adolfo Hitler.

Mas o que mais me intriga, é o facto de se terem dado ao trabalho de fazer um Blogue, só para "tratar" de mim e do meu amigo VTM, proprietário virtual daquela zona da cidade.
Depois de ler o "Post" que considero um elogio à nossa cabriolice textual, o meu desejo único, enquanto penetra da Blogosfera, é continuar a apontar certeira e contundentemente às meninges sempre febris de todos aqueles que gastam os seus dias a tentar enganar o próximo, com políticas de denominação de origem, dando asas ao seu ogre interior, exigente e tirano, sempre pronto a esconder os seus reais propósitos.

Vejo isto dos Blogues mais como um clube onde podemos desabafar pequenas misérias, ensaiar algumas ideias, ou apenas quebrar um pouco a solidão e os tempos mortos. Cada um de nós contribui com um ingrediente diferente, mas certamente muito precioso para a fórmula comum.

A-Verdadeira e o VTM têm uma coisa a seu favor: Se esta improvável mistura provar ser de ignição impossível, o mundo não ficará condenado à agonia. Nem eles.

Entretanto, vai sendo giro assistir às colisões e às carambolas, de todos aqueles que se vão sentindo incomodados.

Beijokas com sabor a muito mel e canela

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

AVENIDA DA PRAIA


Regressei!
E como é bom regressar ao seio de todos aqueles que gostam de nós!
Visto o meu fato de treino, calço as sapatilhas e eis que percorro a Avenida, neste fim de tarde de Verão, em que o sol me beija e o rio acalenta a minha alma.
Como é bom voltar à rotina dos passeios à beira rio, que nos embala as recordações, em que sentimos que vale a pena viver, porque somos livres e amamos alguém.
Dou pela sua falta. Por ali se sentava, em fins de tarde de Outono, naquele banco frente ao Rio. Gabardina cinzenta, coçada e chapéu de chuva, qualquer que fosse o dia.
O leve bater da ondulação ribeirinha serenava-o, por certo.
Aquele banco de madeira, virado ao rio, tinha rugas na face tabuada, com o peso da sua vida e de muitas histórias pesando sobre ombros imaginários.
Todos os dias acabavam ali, sozinho. Era naquele banco que tentava enganar o tempo. Os barcos que chegavam, os barcos que partiam, as gaivotas que voavam, a multidão indiferente à sua imensa solidão.
Eu, olhando para ele, pensava quem seria aquele sonhador que, como eu, atirava pedrinhas ao rio, num exercício de constante melancolia.
Havia sido alguém, imaginava eu, pela forma como o seu olhar se perdia no vazio. Agora talvez fosse ninguém.
Os dias eram sempre rotineiros. Ali passava as horas em meditativos momentos, contemplando o sol poente. Depois, já a coberto da noite, fazia-se vulto e abandonava o cenário, arrastando a sua mágoa e a minha, porque no fundo nós eramos iguais.
Não tinha nome, não tinha rosto, não tinha idade. Protegia-o a solidão e o anonimato cruel da cidade.
Quando deixou de aparecer, os fins de dia continuaram iguais como dantes. Outras pessoas se sentaram naquele banco que ficou com mais histórias para contar. Mas o banco guardou segredo, numa espécie de sigilo profissional.
A verdade é que nunca ninguém reparou naquele homem agastado e triste. M
as eu recordo-o sempre como uma história que nunca chegou a ser história.
Para mim, os ocasos nunca mais foram os mesmos, sem aquela misteriosa silhueta.
Hoje, sento-me naquele banco, atiro pedrinhas ao rio e penso:

Ele poderia não ter nome, não ter rosto, não ter idade.

Mas poderia ser eu.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

MERCADO DA VERDERENA




Cheguei há dois dias de férias e, ao assentar arraiais, dou por mim a pensar:

Que irá ser de toda aquela gente boa, feirante na Verderena, que quis o destino e a sorte, lhe fosse retirado o seu ganha-pão?

A maior parte é iletrada, não sabe ler nem escrever. Muitos já estão no limiar da terceira idade.

Os jovens que lá vendem, fazem-no, porque foi o único trabalho que encontraram. Já encontrei lá, dois licenciados e três feirantes com o décimo segundo ano.

Há ciganos, chineses, pretos e brancos, mas todos eles são seres humanos e merecem ser tratados como tal. Abaixo os preconceitos!

Não façam uma política anti-social e não se esqueçam que são os pobres que ainda vão pagando os impostos e que são eles também os mais generosos, respeitadores e honestos.

As feiras e os mercados, em Portugal, são uma questão cultural e são como pequenas ilhas de produtividade. Também contam para o PIB.

Por isso, vamos todos apoiar o nosso amigo Cabós Gonçalves para que possamos ajudar toda aquela gente que está a ver comprometida a sua subsistência.

Faz tua a máxima de KANT ("age de tal modo que a máxima da tua vontade possa ser sempre considerada como um princípio de legislação universal").

Atentemos no brocardo de Hegel ("sê pessoa e respeita os outros como pessoas").

Vamos todos apoiar esta causa!

Entrem em http://www.mercadomarquezdepombal.blogspot.com/

POEMA À MÃE - EUGÉNIO DE ANDRADE



COM ILUSTRAÇÃO DO TALENTOSO KIRA



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.


in "Os Amantes Sem Dinheiro" (1950)