quarta-feira, 15 de agosto de 2007

AVENIDA DA PRAIA


Regressei!
E como é bom regressar ao seio de todos aqueles que gostam de nós!
Visto o meu fato de treino, calço as sapatilhas e eis que percorro a Avenida, neste fim de tarde de Verão, em que o sol me beija e o rio acalenta a minha alma.
Como é bom voltar à rotina dos passeios à beira rio, que nos embala as recordações, em que sentimos que vale a pena viver, porque somos livres e amamos alguém.
Dou pela sua falta. Por ali se sentava, em fins de tarde de Outono, naquele banco frente ao Rio. Gabardina cinzenta, coçada e chapéu de chuva, qualquer que fosse o dia.
O leve bater da ondulação ribeirinha serenava-o, por certo.
Aquele banco de madeira, virado ao rio, tinha rugas na face tabuada, com o peso da sua vida e de muitas histórias pesando sobre ombros imaginários.
Todos os dias acabavam ali, sozinho. Era naquele banco que tentava enganar o tempo. Os barcos que chegavam, os barcos que partiam, as gaivotas que voavam, a multidão indiferente à sua imensa solidão.
Eu, olhando para ele, pensava quem seria aquele sonhador que, como eu, atirava pedrinhas ao rio, num exercício de constante melancolia.
Havia sido alguém, imaginava eu, pela forma como o seu olhar se perdia no vazio. Agora talvez fosse ninguém.
Os dias eram sempre rotineiros. Ali passava as horas em meditativos momentos, contemplando o sol poente. Depois, já a coberto da noite, fazia-se vulto e abandonava o cenário, arrastando a sua mágoa e a minha, porque no fundo nós eramos iguais.
Não tinha nome, não tinha rosto, não tinha idade. Protegia-o a solidão e o anonimato cruel da cidade.
Quando deixou de aparecer, os fins de dia continuaram iguais como dantes. Outras pessoas se sentaram naquele banco que ficou com mais histórias para contar. Mas o banco guardou segredo, numa espécie de sigilo profissional.
A verdade é que nunca ninguém reparou naquele homem agastado e triste. M
as eu recordo-o sempre como uma história que nunca chegou a ser história.
Para mim, os ocasos nunca mais foram os mesmos, sem aquela misteriosa silhueta.
Hoje, sento-me naquele banco, atiro pedrinhas ao rio e penso:

Ele poderia não ter nome, não ter rosto, não ter idade.

Mas poderia ser eu.

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