sexta-feira, 28 de setembro de 2007

CARA DE CÚ



Há dias em que uma pessoa não devia olhar-se ao espelho.
Hoje é um desses dias. Acordei com cara de cu, a pensar na Europa.
Imaginem, eu que até nem sou muito feiosa, senti-me hoje com cara de traseiro velho e enrugado.
A culpa foi do serão de ontem à noite, na companhia do grupo dos lateiros espanhóis e noruegueses que me visitam em minha casa, para comer o bacalhau assado na brasa, com batatas a murro. Eles apreciam muito a comida portuguesa e acham que sou um génio da cozinha. Mal sabem eles que só os convido por puro egoísmo, para não me sentir só, cá longe, onde o tempo custa a passar, por muito tempo que se tenha.
Nas nossas tertúlias, para além da gastronomia, falamos também sobre o país de cada um.
Achei-os uns queridos por me felicitarem pelo facto de Portugal ir ser a cara da Europa durante seis meses.
Cara de cu, penso eu.
Não é verdade que Portugal está na cauda da Europa?
Então quando o rosto da Europa é o do país que está na sua cauda, logo a Europa tem cara de cu.
É a corrupção a todos os níveis, a burocracia irracional e asfixiante, a indiferença absoluta com as desgraças alheias, a estupidez militante, as perseguições políticas, a censura, o servilismo, a carneirada, a demagogia, a morte lenta.
Diz o ministro das finanças que, para sairmos da cauda da Europa, basta a nossa economia começar a funcionar. Eu digo-lhe que, para sairmos do cu da Europa, é preciso muito mais do que isso.
É necessário que se deixe de exigir o atestado de óbito para um professor se poder reformar por invalidez. É necessário que os nossos governantes e autarcas deixem de considerar a fidelidade canina a qualidade essencial de um servidor ou colaborador do Estado. É necessário que o partido que está no poder não ressuscite, nem encarne, sistematicamente, o espírito da malfadada União Nacional. É necessário o primeiro-ministro, os ministros, os directores gerais e os presidentes de Câmara deixarem de se sentir ofendidos na sua honra e consideração com um simples sorriso ou uma gargalhada dada à socapa. É necessário que qualquer um de nós, independentemente de onde viva ou trabalhe, sinta que pode expressar livremente as suas opiniões, sem temer que daí possa advir qualquer prejuízo para a sua carreira ou um processo-crime por difamação.
Enfim, é necessário ainda muita coisa.
Virámos um povo completamente desprovido de vergonha, de verticalidade e de sentido crítico.
O país está reconhecidamente falido. Quem são os grandes culpados desta situação?
Precisamos de uma grande regeneração dos partidos políticos em Portugal. Essa é que seria a grande reforma estrutural que Portugal precisa para sair da cauda da Europa, mas que só é possível levar a cabo através de um voto maciço de descontentamento.
Deveríamos apostar mais nos independentes com ideias válidas e sérias. Sendo certo que, se algum deles fosse eleito, não faria pior, de certeza absoluta, do que as figuras nacionais e altamente prestigiadas dos partidos políticos que se têm revezado estes anos todos e que puseram o país no estado lastimável em que ele se encontra.
Mas um rasgo destes é demasiado para um povo que viveu tantos anos com a canga às costas. É por esta razão que sou, frontalmente, contra o referendo ao Tratado Europeu, apesar de votar contra o Tratado se houver referendo.
E serei contra o referendo precisamente porque, face à pouca qualidade da nossa democracia e dos nossos governantes, prefiro ser governada por Bruxelas ou por Berlim do que por Lisboa. No entanto, como portuguesa, seria incapaz de votar favoravelmente um Tratado em que o meu país deixa, literalmente, de ter peso e relevância política nas instâncias comunitárias.

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