segunda-feira, 10 de setembro de 2007

DEAMBULANDO...


Durmo mal.
Acordo muitas vezes durante a noite.
Às vezes, como cereais e quadradinhos de chocolate com passas e avelãs inteiras que compro, muito baratos, no Lidl que alguns dizem ser o supermercado dos pelintras.
Faço a ronda aos animais da casa: as cadelas, os peixes, o hamster, os periquitos e o canário.
E leio. Gosto muito de ler.
Nunca vou aos outros quartos vazios. Faço de conta que estão ocupados por todos aqueles que amei e que já partiram.
Vou para a sala e imagino que estou a tomar conta deles, a velar-lhes o sono. Atravesso o corredor como um espectro. Acho que os meus pés nem tocam o chão. O meu corpo é evanescente, transparente. Sou capaz de atravessar paredes, voar através do tempo, falar com os mortos, dar gargalhadas assustadoras.
Sonho muito. Sempre sonhei.
Sou feita de sonhos: árvores de folhas douradas de onde caem afectos, jardins coloniais plantados no cimo da Alfredo da Silva, um tigre de Bengala pachorrento passeando, calmo, pelo Parque da Cidade. No Barreiro Velho, labiríntico, um homem cigano, magro como eu, sorrindo-me ao abrir a porta, convidando-me a entrar.
E, antes de adormecer novamente, a mesma imagem toma conta de mim: são dois pulsos cortados. Um corte ligeiro em cada um deles.
Lágrimas de sangue escorrem lentamente e ensopam um tapete felpudo cor de mágoa e solidão.

Não é uma imagem terrível ou angustiante.

Não me assusta nem me preocupa.

É uma imagem como outra qualquer.

Faz lembrar as chagas de um Cristo padecente, mas sereno.

Sem comentários: