sábado, 22 de setembro de 2007

A DOR E O GRITO


Hoje acordei na minha casa amarela, no seio do Barreiro Velho, esse bairro maldito para tantas pessoas que já se esqueceram do tempo e das memórias e mataram a saudade, enterrando-a em preconceitos.
Cheguei, mas partirei em seguida, porque há coisas a que nunca poderemos fugir, por muito que desejemos fazê-lo.
Não sei porquê, acordei com uma tremenda enxaqueca. Há muito tempo que não tinha uma enxaqueca.
Não conseguia raciocinar nem tampouco levantar a cabeça da almofada.
Meti-me num táxi com a minha receita SOS e rumei à primeira farmácia de serviço, que encontrei. O mundo girava à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as náuseas malditas, essas, não me largavam o corpo. Apetecia-me gritar. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava, pois, conta de mim.
Para minha irritação, quando entrei, tinha duas mulheres à minha frente.
Sentei-me.
A primeira pediu Trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que me conheceram pequenina, lá longe, nas anharas de Angola. Uma dor menstrual tem lá comparação com a sensação de ressaca provocada por uma enxaqueca!
A segunda mulher pediu palmilhas de silicone, anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma sapataria.
A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar.
Meu Deus, como tive saudades, tantas, daquela empregada do senhor doutor, a tal Teresa, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para aqui, senhora doutora para acolá.
Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente.
E eu ali a morrer devagarinho.
Por fim, lá se dignou a atender-me.
Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio.
Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer.
Mal saí da farmácia meti um comprimido à boca.
Passados poucos minutos, o mundo parou de tremer e eu voltei a ser Eu.

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