segunda-feira, 10 de setembro de 2007

FRIO



Está frio.
Tirito.
Apetece-me comer maçãs assadas com canela.
A minha velha ama, que tem nos olhos e nos ombros a solidão, fá-las muito bem.
Se um dia me morre a ama ou o pai, morrerei também.
Mato-me que não me quero por cá sem eles.
Sou mais filha que mãe, tia ou irmã.
Quero ser outra vez menina para ver as trovoadas da janela da cozinha da minha avó.
Com o nariz esborrachado no vidro, imaginando Deus como um génio gigante, feroz, vestido de cetim debruado a estrelas e cometas, arrastando móveis e lançando feitiços, raios e coriscos cá para baixo.
Agora sou crescida.
Sou uma mulher crescida e gelada.
Vou para casa enrolar-me em folhas de jornal.
Depois acendo um fósforo.
Pode ser que me aqueça.

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