domingo, 30 de setembro de 2007

MANTORRAS - O ROEDOR DE SAPATOS



Dou o “dito” e três tostões para estar em minha casa.
Adoro o meu espaço, a minha cama, o meu sofá e tudo aquilo que me faz sentir bem.
Por vezes, dou comigo a pensar: bendito o problema de saúde que tive o ano passado, que me obriga a vir à Lusitânia sempre que a minha luz vermelha se acende.
Os médicos, onde estou, até que nem são maus. Mas eu não troco o meu Dr. Miguel, por nada deste mundo. Primeiro, porque me conhece as manhas todas e, segundo, porque é um “borracho” e está na cidade onde tenho o meu “quartel-general” e sou feliz.
Alguns dizem que as minhas férias são fêmea, que nunca mais acabam.
Sacanas! Nem sequer relevam o facto de eu ter estado doente no ano passado e não as ter podido gozar então. É através de pequenas “bocas” como esta, que se conhecem os verdadeiros amigos. É inveja por eu ter agora uma pipa de férias para gozar.
Mas não será por isso que direi aquela frase canalha “quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos meus cães”. Não, nada disso. Eu gosto muito dos meus cães, mesmo sem conhecer as pessoas.
E a prova é que eles também gostam muito de mim. Quando regresso, é uma festa cá em casa. São como miúdos traquinas. Correm, saltam e escondem-se de mim, quando lhes faço algum reparo.
Os meus colegas sabem deste meu fraco por cães e alimentam-no.
A minha amiga Jessie presenteou-me com uma coisa fofa a que dei o nome de Mantorras. Na altura era uma bolinha escura, de olhos azulados, pequenino, ternurento. Apressei-me a levá-lo ao veterinário, para ter as vacinas em ordem e essas coisas todas que uma boa dona deve providenciar para o seu bicho ser saudável.
O veterinário avisou-me que tinha de lhe fazer um seguro, porque era um Bull Mastiff e por isso integrava a lista de raças perigosas. Eu, obediente, lá fui fazer o seguro ao bicho e vim para casa descansada, com a bolinha ternurenta, fofa e pequenina ao colo.
Já não o via há seis meses. Quando meti a chave à fechadura fui literalmente assaltada por um monstro babão de quase 50 quilos, que mais parecia ter uns cordões de sapatilha pendurados aos cantos da boca. Lambeu-me do queixo à testa e arrastou-me por vários metros. Era ele, o meu Mantorras, em toda a sua plenitude.
A empregada olhou-me confrangida.Vi logo que me queria dizer algo e não sabia bem como começar. Fiquei desconfiada. Passava-se qualquer coisa e devia ser grave, pensei eu.
Vou para a despensa onde guardo os sapatos, a fim de calçar uns chinelos e ia tendo uma apoplexia. Todos os meus chinelos, as minhas sandálias e os meus sapatos jaziam agora a um canto, completamente triturados. Dei um grito de horror.
Pedi explicações à Dona Mimi, a senhora que me ajuda nas lides da casa. A D.ª Mimi justificou-se: tinha deixado o Mantorras fechado na despensa, sem querer, e ele vingou-se. Roeu-me os sapatos todos.
Acabei por achar graça e não consegui ficar zangada por muito tempo, porque o sacana, nas minhas bochechas, começou a roer-me a mala de viagem.
A D.ª Mimi, com o seu riso que lhe é peculiar, só dizia: “deixem roer o Mantorras!”.
Não sei porquê, não consegui deixar de pensar no meu Benfica que mais uma vez empatou.

Sem comentários: