sábado, 15 de setembro de 2007

DOCES RECORDAÇÕES



A cidade chove as primeiras lágrimas de Outono, lágrimas que eu evito a custo.
As palavras já perderam há muito o hábito de conversar connosco. Habita-nos este silêncio que nos consome e respira o nosso ar, até à lenta asfixia em que sobrevivemos.
Vou caminhando pelas ruas onde me perco em cantos e recantos que conheço de cor e paro. Da rua vejo a tua sombra gigante reflectida nas paredes do teu quarto que já foi nosso, por instantes, e sinto um desejo enorme de subir para me despedir de nós. Oiço o vento que traz até mim a música que escutas e que era a nossa e danço sozinha no passeio, uma dança demente, sem nexo.
Doce melancolia. Um dia voltei e disseste-me que pensavas que eu já tinha morrido. Mas eu ressuscitei e estava ali ao teu lado, como sempre estive em pensamento e queria estar.
Confessaste-me os teus amores, os teus medos e as tuas desilusões como sempre fazias, quando éramos crianças e eu ainda era viva para ti.
Comprei champanhe e morangos e convidei-te para jantar na minha nova casa e recusaste. Deitei fora os morangos, o jantar e arrumei a garrafa junto às velharias que ofereci. E fiquei só. Toda a noite aquela coruja piou como que a lamentar-se por mim e eu adormeci sem ti.
Não sei quando morri. Apenas sei que já não sou eu e, por isso, vou partir. Um dia deixei tudo por ti mas, apesar de tudo, fiquei só. Foi para ficar contigo, se ainda me quisesses. Tu não quiseste.
Mas que me importa? Valeram aqueles momentos e ficaram as boas recordações.
Já tudo foi dito entre nós. O que ficou por dizer, vou guardar para o meu último instante e esperar que me oiças.
Até lá, levantarei o meu olhar silente à tua passagem anónima por esta ausência a que gosto de chamar vida.
Um dia, talvez, quem sabe, ainda chame por ti, se me lembrar do teu nome...

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