terça-feira, 25 de setembro de 2007

ROSTOS



Quando leio o jornal, gosto de ir à página da necrologia. Não sei porquê, não posso deixar de fazê-lo. É superior às minhas forças.
Detenho-me a olhar as fotos. Algumas não estão de acordo com a idade dos falecidos. São fotos de jovens que à primeira vista teriam morrido na flor da idade. Uma leitura mais atenta, porém, denuncia que a idade do “ de cujus” é avançada e que o jovem que vemos na foto, já o foi há muitos anos atrás.
Por qualquer motivo, alguém pegou na primeira foto que apanhou e, sem sentido crítico, numa espécie de marketing fúnebre, colocou o anúncio da praxe: “ Foi Deus servido chamar à sua divina presença…”. Uma sacanice, uma falta de respeito para com o morto.
Enfim, não podemos imputar a responsabilidade aos falecidos. Isso seria exigir demais e, como nós, os vivos, dizemos, paz às suas almas.
Por analogia, debruço-me também sobre as fotos que ilustram os artigos de opinião, nos jornais impressos e on-line. São em tudo parecidas com as dos anúncios da necrologia.
Há vários anos que os retratados exibem a mesma juventude, o mesmo sorriso, a mesma cabeleira farta, o mesmo ar de quem está ali para as curvas.
Ok. Eu compreendo que nem sempre o fotógrafo acerta com o nosso lado mais sensual e que, quando se fica bem no retrato, é a felicidade das felicidades e a tendência é fazer dele um cartão de visita, ao ponto de o utilizarmos "ad eternum", mesmo que as rugas já comecem a instalar-se e o sorriso outrora pepsodent, seja agora desdentado.
Algumas dessas fotos são em tudo parecidas com as da necrologia. São perenes, catatónicas e obedecem quase sempre a uma lógica do sentimento de si próprio, como um exorcizar escatológico do tempo e da razão. Talvez no seu íntimo, no mais profundo do seu ser, o retratado se considere como um Dorian Gray e veja no seu retrato a sua própria sombra como um instrumento de sedução, aquela sedução que já foi e não voltará a ser.
Este é um fenómeno recorrente. Eles e elas são unânimes e contumazes na utilização de fotos antigas, apesar de a legislação portuguesa de identificação civil e criminal prever que as fotografias deverão ter menos de um ano.
Dá-me um certo gozo verificar que há pessoas que não têm a noção do ridículo.
Se eu um dia tiver essa maluqueira, que Deus me faça cair qualquer coisa em cima do toutiço.

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