quinta-feira, 13 de setembro de 2007

I MISS YOU!



Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela ia visitá-lo. Há algum tempo que já não estavam juntos, mas ambos sentiam gostar tanto um do outro que era necessário que se reencontrassem, nem que fosse por um só dia.
Sentado, alheio ao que o rodeava, ele esperava-a sempre com ansiedade.
Viu-a quando ela apareceu ao longe, radiosa, caminhando devagar pelas alamedas sombrias, cobertas de folhas secas, trazendo nas mãos as mesmas rosas vermelhas que tantas vezes lhe enviara pelo correio e que ele enjeitara, troçando do seu amor e da sua ingenuidade, trocando-a por amores fúteis e franquiados.
Como estava arrependido de a ter feito sofrer e como a amava afinal…
Se o tempo pudesse voltar para trás, para poder abraçá-la e pedir-lhe perdão…
Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto culpado, porque jamais se lembrava de lhe ter oferecido flores.
Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, mais do que no ano anterior, mais do que na época em que se conheceram, há mais de trinta anos atrás. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando o seu rosto tenso. Por mais que os seus encontros se repetissem anualmente, ela parecia nunca se acostumar a eles.
Afinal, reencontraram-se. Ofereceu-lhe as flores e encarou-o por um longo momento. Sabiam que já não havia nada a ser dito, que o tempo se tinha gasto e que muita coisa ficou por dizer.
Ela estava só e arranjou um emprego melhor. Já ele, permanecia na mesma situação desde a separação, alguns anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.
Percebeu que os olhos dela ficaram húmidos e sabia o que ela pensava: "Se ainda pudéssemos estar juntos e ser felizes…".
Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito. Quantos mais anos de separação seriam necessários para ela se convencer?
Ele não conseguia entender a razão de tal apego dela ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo, desejando o impossível.
De repente, uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que era hora de partir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas da mão, sorrindo incerta e despediu-se com uma tristeza resignada na voz.
Ele, por sua vez, não se mexeu. Acompanhou-a com o olhar, vendo-a a afastar-se lentamente nos seus passos leves mas seguros, sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas.
Ela voltaria sempre, ele sabia. Estaria lá novamente, no mesmo dia de Finados, para lhe oferecer as suas rosas vermelhas que ele antes enjeitara.
E ambos, mais uma vez, recordariam o tempo em que haviam estado juntos, como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

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