quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O VERNÁCULO LUSITANO



Que me perdoem os eruditos mas eu sou mesmo assim. Eu adoro o vernáculo do Norte e não há volta a dar.
Na Cidade Invicta, o vernáculo é uma arte. Nunca ninguém se poderá sentir ofendido com as conotações sexuais de cada palavra, de cada frase.
No Norte, eles acariciam as palavras.
No resto do país, os palavrões são utilizados em situações extremas, para mostrar desagrado por uma situação, ou para insultar alguém que se pretende rebaixar.
No Porto, os palavrões não são obscenos. São uma filosofia e uma arte. São de todos e não apenas de uma elite e servem para exprimir uma sabedoria.
O jogo de metáforas, todas elas referentes ao acto sexual, servem para compreender a vida.
Tudo não passa de um jogo tácito.
Por exemplo, quando dizem que alguém “apanhou no c.”, isso significa que foi vítima de um abuso tão flagrante que nem teve tempo de reclamar. A expressão aplica-se a variadas situações como ter sido despedido, ou ter pago um preço exorbitante por uma compra qualquer. Parte-se do princípio que o sexo anal é um acto de prazer unilateral, que implica a humilhação do sujeito passivo.
Quando dizem “tenho apanhado muito no c.”, querem dizer que já passaram por muito, nesta vida. Se respondem a um pedido ou a uma proposta com a frase “na c. da tua tia”, isso significa sempre uma recusa peremptória do tipo “nem penses!” ou “isso é que era bom!”. Eu, pessoalmente, adoro a frase “nos tomates!”.
Outra coisa que me fascina no vernáculo portuense, são as alocuções “p. que te pariu” ou “filho da p.”. Ambas são inequivocamente negativas, pois pressupõem que a mãezinha do outro seria uma trabalhadora do cabedal, pelo que o interlocutor teria sido gerado durante um acto mercantil.
Mas pelo contrário, ao dizer-se “meu grande filho da p.”, este é um gesto de carinho sem limite, como que a bendizer o indivíduo em causa, por se ter portado como um filho exemplar e merecedor de todo o respeito e protecção da sociedade, apesar de as circunstâncias adversas em que foi criado.
Depois ainda temos a medida-padrão: grande “comó c.”, feio “comó c.”, ou ainda o sentido de posse expresso na frase “é do c.!”.
Que outra palavra haveria, mais adequada, para nos dar a noção de grandeza?
Quando nos apercebemos que vivemos num país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e a justiça estão num caos, os empresários são mafiosos e procuram o lucro fácil em pouco tempo, as reformas são baixas e o tempo para a desejada reforma vai ter de aumentar, pensamos "já me f.!"
Então, só nos resta ter esperança e pensar: Este país ainda vai ser “um país do c.! “.

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