quarta-feira, 17 de outubro de 2007

AS "CUNHAS"



O governo continua à nora por falta de "matemáticos". É um desespero. Ninguém dá duas para a caixa em matéria de prestação de contas e de contas públicas. E a falta de "raciocínio lógico"!!!… – Outro drama.
Uma vez pensei que se, por qualquer motivo, fosse obrigada a deixar Portugal, e me perguntassem de que é que teria mais saudades, não hesitaria em dizer: «Sinto falta das pessoas, da terra, da luz, do mar, do ar».
Agora, alguns anos volvidos, não posso deixar de reflectir nesse meu sentimento.
Como tantos outros jovens licenciados, tive de me fazer ao Mundo, para poder sobreviver condignamente, dentro da minha área profissional. Foram tempos difíceis que exigiram, de cada um de nós, cabeça fria e peito aberto para o que desse e viesse, em termos de carreira profissional. Mas, apesar de tudo, eu e os meus colegas, tivemos sorte. Levámos a nossa enxada e cavámos o melhor que sabíamos e que fomos capazes. Por lá ficámos até hoje. Nós, portugueses, somos dedicados, produzimos e temos espírito de missão, quando nos vemos privados do nosso universo.
Volto sempre, quando posso e me deixam e, nos dias de hoje, dou comigo a pensar se hoje teria tido a mesma coragem de me matricular em qualquer curso que fosse, numa universidade portuguesa.
Tem-se constatado que as coisas não mudaram muito em Portugal e que hoje, ser-se licenciado, é o mesmo que ser candidato ao desemprego de longa duração.
O Governo anuncia novas oportunidades que não se vêem em lado nenhum. Conheço casos de jovens que calcorreiam Seca e Meca, de diploma e curriculum debaixo do braço, à procura de trabalho. Muitos ouvem a frase caricata: “Tem habilitações a mais, para o desempenho do cargo”.
E eles continuam a dizer que Portugal precisa de procurar a “excelência”, cultivando a educação e procurando novas oportunidades, ao arrepio das tristes evidências.
A maior parte dos concursos públicos de admissão de técnicos superiores para a administração pública, publicados em Diário da República, estão viciados à partida. Quando leio os critérios de admissão, não posso deixar de pensar que muitos deles já têm destinatário e que só falta pôr lá a fotografia dessa pessoa a quem o lugar já está destinado.
Nas empresas privadas passa-se o mesmo. Se é licenciado, só poderá ser o filho do gerente do banco onde a empresa em questão tem o crédito mal parado, ou qualquer outra coisa do género. Uma mão lava a outra.
Enfim, incrementa-se o factor C de forma vergonhosa e despudorada.
Infelizmente, em Portugal, é do entendimento geral que as cunhas, ao fim e ao cabo, serão atitudes de grande humanidade em que, quem implora um favor, só quer facilitar a vida aos que gostam de ajudar. Portanto, seremos um país de boas pessoas, de queijos, de garrafas e de presuntos no Natal e na Páscoa...
Em última análise, um país que aposta na comunicação e no convívio entre as pessoas. Ora, isto é sempre bonito, na óptica de alguns .
Caros desempregados: deixo-vos aqui uma palavra de alento. Não desistam. Apostem na vossa formação, mesmo que não vislumbrem novas oportunidades.
As tais novas oportunidades através da educação, de que o Governo fala, é uma forma de eles levarem a água ao seu moinho: enquanto estiveres na escola, não figuras nas listas de desemprego.
E isso, para eles, é ouro sobre azul!

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