domingo, 28 de outubro de 2007

"BURROCRACIA"



Este meu vizinho do lado, por mais que eu lhe ensine todos os truques, não há meio de aprender.
Há dias acompanhei-o numa incursão à Câmara Municipal do Barreiro, por causa das obras que ele também quer fazer na sua casa.
Foi o bom e o bonito com a história das paredes-mestras e a forma como a edilidade interpreta a legislação sobre o assunto.
O meu vizinho, que não se pode enervar, barafustou e quase que deitava a edilidade abaixo, à linguada.
Se fosse eu, tinha feito a obra e pronto. Não se falava mais no assunto.
Foi o que fiz em relação a uma janela que quis abrir no sótão da minha casa, virada para a rua. A Câmara, face ao projecto do Arquitecto, recusou a licença de abertura de uma janela no sótão, com a treta da história das fachadas e das paredes mestras.
Eu não me conformei porque, analisando a construção, não estava em causa nenhuma fachada, nem nenhuma parede mestra.
Matutei, matutei e estive três noites sem dormir a pensar numa forma de contornar a questão.
Numa dessas noites, quando estava quase a adormecer, surgiu-me uma ideia brilhante, que iria provar que as Câmaras fazem da legislação tábua rasa e não aplicam a interpretação correctiva da mesma. São como aqueles burricos com palas: só vêem o que julgam ver.
Vai daí, levantei-me e redigi, "à maneira", um requerimento em que solicitava o fecho de uma janela no sótão. Está claro que a janela não existia e o que eu queria mesmo era abrir uma nova.
O Arquitecto ficou estupefacto e duvidou das minhas capacidades de jurista idónea e experiente. Tranquilizei-o dizendo-lhe que não queria vigarizar ninguém, mas apenas provar que a Câmara não estava a ver o "filme".
Dei entrada ao requerimento e, como esperava, foi indeferido: não podia fechar a janela do sótão.
Deste modo, eu passei, na prática, a ter uma janela aberta no sótão e não posso fechá-la, porque o despacho camarário impede-me de o fazer.
Lógico que acabei por não abrir a tal janela. Contentei-me com uma daquelas de telhado, que se levantam com uma leve pressão e que acabou por ficar mais airosa e menos dispendiosa.
Ainda hoje me divirto muito, quando conto esta cena aos amigos.

Sem comentários: