terça-feira, 16 de outubro de 2007

CENAS ENTRE VIZINHOS DO PEITO



Há já algum tempo que não vou ao teatro. E teatro é uma das coisas que aprecio muito nesta vida. Falta-me disposição mas também me falta companhia. Vou ao futebol sozinha, mas não consigo ir ao teatro sem alguém com quem possa comentar a peça e dividir o chocolate com amêndoas, que teimo sempre em levar comigo, quando vou ver algum espectáculo de antologia. É superior às minhas forças: teatro sem chocolate, não é teatro.
Por isso, aqui há dias, bati na janela do meu vizinho do lado. Convidei-o para vir comigo assistir ao vivo a uma peça no AMAC, na cidade do Barreiro.
Este meu vizinho, de vez em quando está mal-humorado. Abriu a janela de supetão e gritou-me aos ouvidos: ”Estou farto das suas maluquices!” “Não me venha para aqui meter cunhas, que eu não estou para aí virado!”.
Vizinho injusto. Eu mal abri a boca!
Tentei convencê-lo a vestir-se de mulher, é verdade. Levei o meu vison, o meu vestido dourado transparente e os meus collants. Fuzilou-me com o olhar mas vi que ele ficou curioso.
Consegui que experimentasse os meus collants. Realmente, não lhe ficavam lá muito bem. Os pêlos das pernas saíam pela malha sedosa das meias e na parte da frente havia qualquer coisa que não assentava muito bem.
Pronto, desisti! O VTM decididamente não estava para me aturar.
E se fossemos visitar o Kira? (perguntei eu).
Sentindo-se confortável, o vizinho não quis despir os collants. Lá fomos em direcção ao hospital com meia cidade a reparar naquelas pernas esquisitas, de pêlos espetados e a sair para fora das meias.
- “Está a ver o que você me arranjou?” –“Agora toda a gente vai dizer que sou maluco como você!”
Senti remorsos.
No hospital o Kira jazia na sua cama articulada, com um ar feliz. Hummm…,pensei eu. Aquela cara é de quem está a ser muito bem tratado. Será que a Marilyn Monroe trabalha naquela ala?
Nisto reparo que o VTM retira uma pulseira electrónica a um bébé e enfia-a no seu próprio pulso, com um ar de missão cumprida.
Apresso-me a retirar-lhe a pulseira e a colocá-la de novo na criança, antes que meio hospital viesse atrás de nós.
Repreendi-o. Aquilo não era coisa que se fizesse, muito menos num hospital.
Olhou-me furibundo e desabafou: “Eu só queria testar a eficácia da pulseira, para poder usá-la em si. Você dá-me cabo do juízo e seria uma forma de a controlar”.
Nisto o Kira suspirou. Contava os doze pontos que vai oferecer ao Sporting e sorria de satisfação. Vamos ter campeão à custa dele.
Oiço um grito: “Fuja!”.
Olho para trás e vejo o VTM a fugir a sete pés de uma enfermeira mamalhuda que, de luvas calçadas, tentava enfiar-lhe os dedinhos, sabe-se lá onde.
Corremos os dois e conseguimos fugir aos tropeções pelos corredores fora.
Já cá fora, exclamámos em uníssono:
“Ufa! Escapámos de boa!”.

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