sábado, 13 de outubro de 2007

"TREBLINKA"



Ando com um problema para resolver mas tenho medo de ser injusta. Eu sou assim. Penso sempre nos prós e nos contras, antes de resolver seja o que for.
Enquanto não chega o momento de decidir, vou andando por aí, pelas ruas da cidade, observando tudo aquilo que normalmente escapa à maioria dos olhares atentos, para ver se me inspiro.
Num desses meus passeios sem rumo, fui parar à zona degradada dos caminhos-de-ferro do Barreiro.
Vieram-me à memória os meus tempos de infância, quando visitava o meu falecido avô, engenheiro da CUF, no seu local de trabalho, paredes-meias com as linhas de comboio. Recordo-me do bulício e do fervilhar de vida em torno da CP e daquele cheiro a vapor e a carvão.
No Barreiro, o sector ferroviário e o caminho-de-ferro fazem parte do imaginário de várias gerações.
Antigamente havia apenas duas hipóteses: ou a farda de polícia ou da CP. Muitos optaram por vestir a segunda. O Barreiro não foi excepção. Não havia família que não tivesse alguém ferroviário.
Percorro os carris desdentados e reparo nas máquinas ferrugentas. Estou a olhar para o passado, um passado que também foi meu, ainda que por breves instantes. Imagino o meu avô com o seu ar franzino e olhar inteligente que me dizia sempre: “se fosses rapaz, levava-te comigo a andar no comboio”. Eu morria de inveja dos meus primos que, por serem rapazes, tinham esse privilégio: andar no pequeno comboio que transportava mercadorias da CUF.
Os lugares, outrora preenchidos, estão agora desertos e têm uma história para contar. Os fantasmas espreitam pelas janelas de vidros partidos e caixilharias podres. Acenam-me como que a despedir-se de mim e eu, sem querer, associo-os a Treblinka. Meu Deus, como aquele local é parecido com Treblinka!
Dali, daquelas oficinas, foram deportados em massa, milhares de trabalhadores, gaseados sem piedade em nome do Progresso. O desaparecimento do caminho-de-ferro foi uma grande perda, não apenas para aqueles que viviam dele mas também para a cidade como um todo, porque contribuiu para o empobrecimento do Barreiro.
Temos a obrigação de restaurar a memória dos Ferroviários Barreirenses e transmiti-la às futuras gerações.
Por isso, penso muitas vezes que não seria despicienda a ideia da criação de um Museu da História dos Ferroviários Barreirenses, em vez de deixar apodrecer o que resta das memórias.
Avô, da janela do teu escritório, já não se vêem pessoas. E agora já não há gestores capazes. Só olham para o TGV.
Tenho saudades tuas.
Vou ficar por aqui, mais um pouco, para me lembrar de ti.

Sem comentários: