sábado, 12 de janeiro de 2008

MOMENTOS DE MERDA



Chegámos ao início de mais um ano, desta feita bissexto. Sou um pouco supersticiosa a esse respeito e, embora a astrologia diga que as pessoas nascidas sob o meu signo vão ter um ano excelente, com uma estrela que os guiará num caminho de plenas realizações, eu acredito que para grande parte dessas pessoas, tal não irá ser possível.
E não será possível, porquê?
Porque os arianos que vivem em Portugal, esse país que já foi grande e que hoje é a vergonha de todos aqueles que têm orgulho na sua história de antanho, não têm projecto de vida, nem tampouco vislumbram uma luz ao fundo do túnel.
Estamos num país em que as oportunidades são só para aqueles que podem pagar ou que têm um universo de amigos influentes, com o condão de lhes encurtar a via sacra. É uma espécie de clube em que pobre não entra e, se entrar, é porque já pagou a dobrar.
Quando vinha do aeroporto para casa, durante o percurso, fui reparando na série de Pais Natal alpinistas, pendurados nas varandas. Uns maiores, outros mais pequenos, mas todos eles com algo em comum: Made in China.
Não consegui deixar de pensar no que motiva as pessoas a adoptar crenças e costumes que não lhes pertencem.
Acho que Portugal se tornou um país atípico, com um Governo atípico.
Com esta história das festas de Natal e de Fim de Ano, tenho passado mais tempo na casa de banho que é o meu local de eleição para pôr em dia as minhas leituras. Os distúrbios alimentares têm-me proporcionado bons momentos de leitura e de reflexão que de outra forma não poderia desfrutar, dado a minha limitação em termos de tempo.
Foi num desses momentos de reflexão que tomei conhecimento, incrédula, através de um daqueles jornais fornecidos à borla, que não iria haver referendo e que a Assembleia da República iria "ratificar" o Tratado de Lisboa.
Não que eu duvidasse que mais uma vez José Sócrates mentiu ao Zé Povinho mas porque achei imperdoável que a nossa comunicação social não saiba que a Assembleia da República não ratifica Tratados Internacionais, apenas os aprova, sendo a ratificação uma competência constitucional do Presidente da República. Trata-se de uma questão elementar de Direito Internacional que os orgãos de comunicação social demonstram ignorar e isso é grave porque quem faz notícias não as pode pôr cá para fora de forma leviana e ignorante.
Outra tirada hilariante foi aquela frase sobre o aeroporto de Alcochete: "decisão provisória". Fiquei a saber que em Portugal as decisões são todas provisórias e por lá se mantêm até que alguém se lembre de retomar a questão e torná-las efectivamente decisões, na verdadeira acepção da palavra.
Enfim...
Vou continuar a ter os meus momentos de reflexão e a dar voltas ao miolo para tentar compreender por que motivo algumas coisas que se passam em Portugal já não acontecem em nenhum outro país do mundo.
Até lá vou ficar na minha: que se lixe o Darfur enquanto em Portugal houver crianças maltratadas, com fome e a passar mal.
Que sejamos mais solidários com aquelas pessoas que precisam, que passam todos os dias por nós e que teimamos fingir que não as vemos.
Que todos possamos ter, uma vez na vida, um momento de reflexão.
Que todos sejamos pessoas.



Sem comentários: