terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

FOLIANDO



Estas festas de Carnaval matam-me, dão cabo de mim. São como um "jetlag" porque, primeiro que me reorganize em termos interiores, é um verdadeiro bico de obra.
Sou adepta da máxima "deitar cedo e cedo erguer...", embora a minha vida profissional me faça fazer muitas "directas". Mas uma vez não são vezes e também faz falta soltar, de vez em quando, o vulcão que há em mim. Sim, porque embora não pareça, eu sou um autêntico furacão. Que o digam aqueles que comigo privam. ´
A língua portuguesa é muito traiçoeira e, por isso, nada de maus pensamentos sobre "moi-même". Para isso já basta aquele "estrunfo" que, à conta de andar a propagandear os meus dotes sexuais, fez com que haja uma curiosidade inusitada a meu respeito. Isto aqui para nós, até nem me desagrada nada porque, como moçoila irreverente que sou, gosto de os manter na dúvida: Será "freira", será "boazona"?
O melhor mesmo é que fiquem na dúvida e não dêem ouvidos a despeitados analfabetos que pensam com a "piroca".
Quando estou com este estado de espírito, vou até ao Barreiro Velho bater na janela de um dos meus vizinhos preferidos para dar dois dedos de prosa, apesar de a maior parte das vezes ele correr comigo, por não estar para me aturar.
Hoje ficou furioso porque o acordei quando estava ainda no primeiro sono. Roncou-me forte e feio e, eu, sentei-me à porta de casa, como o cachorro do VTM, à espera que acordasse, para podermos conversar um pouco.
Já o sol ia alto quando a porta da rua se abriu e saíu o meu vizinho.
-"Ó vizinho, isto é que são horas?", perguntei-lhe eu. Nunca pensei que me gritasse aos ouvidos, que eu não tenho nada a haver com isso.
Injusto, este vizinho. Só lhe queria lembrar que dia 12 de Fevereiro de 2008 faz anos que o Barreiro foi elevado a freguesia. Precisamente 521 anos.
- "Ó vizinho, não acha que é muito tempo"?
Não obtive resposta. Ele é assim. Quando está fulo comigo, nem sequer me responde.
Lá fui a saltitar atrás dele, na esperança que parasse um pouco para me ouvir, mas nada. Não parava.
Comprou o jornal e sentou-se no banco do jardim a ler. Não me ligava nenhuma. A páginas tantas, lá se dignou falar comigo para dizer:
- "Você é uma pessoa muito estranha. Conhece toda a gente e sabe tudo sobre a cidade, mas ninguém sabe quem você é. Isso não é normal, convenhamos. Veio morar aqui ao lado e, quando me bate na janela, é só para arranjar bronca. Por que motivo você é assim?"
Não respondi. Talvez nem saiba responder.
Pedi-lhe o suplemento do jornal e fingi que lia com atenção. Pela minha cabeça começaram a passar histórias e imagens que fazem a história simultaneamente alegre e triste desta gente maltratada, mas decidida e confiante num futuro melhor, qualquer que ele seja.
Nada mudou no Barreiro. Existe agora uma outra espécie de fascismo e de repressão. A exploração, opressão, discriminação e a intolerância continuam com outros actores autocráticos, que desempenham muito bem o seu papel.
Os novos operários da globalização não serão nunca promovidos, se não pertencerem à organização. Os anti-cristo deverão pertencer todos à "Opus Dei" e todos os outros farão da Maçonaria o seu Credo, ao encontro de um Oriente esplendoroso de terras Lusitanas só para meia dúzia.
Foi-se a integridade, a verticalidade, a honradez, a coerência, a coragem desta gente anónima, agora compelida a viver e a militar em sonhos e emoções que já não são os seus.
-"Vizinho, pegue lá o jornal. Vou-me embora."
-"Ah, está aí. Pensei que tivesse adormecido. Se quiser, pode ficar com ele. Já o li".
Levantei-me, sacudi o meu vison e fui até à Avenida Alfredo da Silva para ver o Carnaval passar.
Há dias assim.

Sem comentários: