domingo, 23 de março de 2008

AVENIDA DA REPÚBLICA



Obviamente que no decorrer de toda minha vida já me apaixonei várias vezes.

Já namorei, noivei, casei e divorciei.

Mas amar, amar mesmo, acho que amei pouco.

Ou, melhor dizendo, amei poucos.

Por incrível que pareça, o amor mais intenso e profundo, aconteceu-me quando tinha 16 anos.

Eu era estudante e ele estudante-trabalhador, meu vizinho, um pouco mais velho que eu.

Namorámos durante vários meses.

Agora, muitos anos depois, ainda fico abalada quando penso ou falo nele.

Era um rapaz inteligente, bonito, culto, trabalhador, engraçado. Era socialista e isso incomodava-me horrores. Provavelmente eu fosse mais tolerante hoje mas, na época, era um problema muito grave.

Uma vez, numa daquelas nossas conversas de namorados, ele fez-me a seguinte proposta: escreveríamos uma lista das coisas que nos incomodavam um ao outro e trocaríamos a tal lista no dia seguinte, quando fosse ter com ele ao serviço, ali para os lados da Avenida da República, em Lisboa, junto ao Saldanha.

No dia seguinte, depois do nosso almoço, lá lhe entreguei a minha longa lista.

Ele deu-me um papel dobrado em quatro e, quando o abri, estava em branco.

Com um sorriso que nunca mais vou esquecer, disse que nada em mim o incomodava.

Nunca adorei tanto uma mentira.

Sem comentários: