sábado, 1 de março de 2008

ESQUELETOS



Há dias em que a inspiração me falha e não sei o que escrever.
Não sei sequer sobre o que escrever. Apenas sei que me apetece escrever sobre qualquer coisa, mesmo não sabendo bem o quê ou sobre o quê.
Hoje pensei em esqueletos. Sim, esqueletos. Daqueles que todos temos guardados nos nossos armários da memória.
Aqueles assuntos estranhos de que nunca falamos, aquelas pessoas e sentimentos incómodos que não queremos recordar nem partilhar com ninguém.
Todos nós temos esqueletos. Uns mais esqueléticos do que outros, outros já mais gastos e, por isso, com ossos mais fracos.
Há aqueles que nos atrapalham muito e por isso são considerados esqueletos adultos e outros de que nem nos lembramos que existem e que, por isso, são esqueletos infantis.
No meu caso, eu própria tenho vários esqueletos de estimação, no meu armário, como se um esqueleto fosse coisa que se mimasse e preservasse.
Há um deles que não consigo deitar fora. Como aqueles objectos que estão velhos, mas que nos trazem recordações tão boas que nós não conseguimos separar-nos deles. Eu tenho um esqueleto assim. O meu esqueleto é uma pessoa, ou melhor, as recordações do que vivi e do que passei com essa pessoa.
É um esqueleto adulto, porque me atrapalha muito em muita coisa, porque me traz muitas recordações, boas e más, como tudo na vida. Porque tem uns ossos tão grandes que me conseguem prender em muitas decisões. É um esqueleto adulto porque em muitas situações não me larga e lembro-me muitas vezes que ele está lá guardado nas profundezas do meu armário.
É aquele esqueleto que eu detesto. Apetece-me queimá-lo e atirar as cinzas dos seus ossos à primeira lufada de vento Siroco, aquele vento quente dos desertos de África, que nos aquece por fora e por dentro e que arrasta areia suficiente para que essas cinzas se misturem com os seus finos grãos, transformando-as em poeira que o vento transporta para fora da nossa memória.
Este meu esqueleto é pesado. Talvez por isso ainda não tenha conseguido tirá-lo do meu armário. Tenho andado a partir-lhe os ossos aos poucos e já dei alguns a roer a muitos cães vadios e esfaimados que tenho encontrado por aí.
E são esses ossos todos que me entopem o armário e as recordações.
Como seria fácil se pudessem transformar-se em roupa usada para distribuir por todos aqueles que não tivessem no armário um esqueleto para mimar.
À medida que avanço no tempo, dou conta que tenho um esqueleto na alma e na memória e que o transporto em três armários: o da vida, o da memória e o do coração.
Um esqueleto que ocupará sempre uma parte vital do meu ser.
Um esqueleto que teimo em estimar.

Sem comentários: