segunda-feira, 24 de março de 2008

NO SILÊNCIO DA NOITE



Abro a janela do meu quarto e espreito o teu corpo velho, magro, sujo e sem abrigo.
Deitado naquele banco da praça, que teimas em chamar tua, acenas-me sempre, feliz.
Nunca consegui perceber porquê.
Tu que tens um tecto de estrelas e uma cama de luar, és feliz.
É a tua casa, dizes tu. Já tiveste muitos amigos, já foste alguém.
Agora és apenas tu.
E eu.
Não és ninguém e eu sou apenas eu.
Observo-te enquanto dormes, pela calada da noite, quando não estás a ver-me.
Interrogas-me com o olhar e não te sei responder.
Tenho casa, tenho um tecto mas faltam-me as estrelas e o luar.
Viras-te para o outro lado.
Encosto a minha janela de mansinho, com medo de perturbar o teu silêncio.
Fico por instantes a ouvir a noite.
Depois, cansada, recolho-me e penso

Amanhã, quem sabe...

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