domingo, 30 de março de 2008

O CASAMENTO



Enquanto bebo o meu chá, vem-me à memória o dia de ontem, muito bem passado entre os amigos de sempre.
Nos últimos tempos tenho andado muito arredada das nossas tertúlias mas ontem foi um dia muito especial e eu não podia faltar.
A mais nova do nosso grupo resolveu dar o "nó", numa altura em que as relações já não são o que eram e os afectos andam perdidos, sabe-se lá por onde.
Não podia perder a ocasião e lá fui marcar presença, vestida de dourado transparente, cabelos ao vento e uma vontade enorme de me divertir.
Como sempre, tinha de acontecer alguma coisa que marcasse o acontecimento e o tornasse inesquecível.
Quando vou a algum lado, prometo sempre a mim própria que me vou portar bem e que tudo à minha volta estará na paz do Senhor.
Mais uma vez não foi o caso.
Como uma das seis damas de honor, coube-me a tarefa de transportar as alianças que o padre benzeu na presença de todos. Até aqui tudo bem, não fosse eu ter escorregado do alto dos meus saltos finíssimos e ter deixado caír a salva com as alianças.
Como por encanto, as ditas desapareceram e ficámos todos a olhar uns para os outros.
Tinham-se eclipsado nas barbas de toda a gente e, o fotógrafo, a postos para captar a tradicional troca, olhava-me furibundo enquanto eu, atabalhoadamente, procurava em redor um sinal dos benditos aros dourados.
A noiva, desolada, lá estava no seu vestido branco, com metros de cauda e um véu prateado que lhe escondia o ar zangado.
Tropecei mais uma vez, porque isto de andar de saltos altos tem que se lhe diga, e fui caír em cima do sacristão, ao mesmo tempo que pregava a minha amiga ao solo com o salto finíssimo do meu sapato esquerdo.
Gerou-se tamanho burburinho que nem me quero lembrar.
O sacristão, caído em cima de mim, com as fuças aconchegadas no meu peito, não atava nem desatava e parecia que tinha morrido. Eu empurrava-o e o diabo do velho cada vez se apranchava mais.
As outras damas de honor, muito divertidas, tentavam despregar a rabona da noiva que estava pregada ao chão pelo salto do meu sapato que, entretanto, me tinha saltado do pé.
O padre olhava a cena, paciente, na esperança de ver aparecer as alianças, para assim poder dar por finda a cerimónia.
O fotógrafo, esse, tirava fotografias a torto e a direito, como se estivesse possuído por uma coisa má.
Nisto, lá consegui libertar-me do velhote e agarrar-me à perna do noivo que, instintivamente, a sacudiu.
Milagre!
As alianças estavam alojadas na dobra das calças do noivo.
Despregada a noiva do chão, alianças no dedo e sacristão a postos, lá fomos então todos a caminho do copo de água deste casamento que ficou para a posteridade.
As fotos ficaram todas do melhor que há.

Pelo acontecido, duvido que nos próximos tempos volte a ser convidada para um casamento.

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