sábado, 10 de maio de 2008

O CONDE DO BARREIRO VELHO



Como costumo fazer todos os fins-de-semana, fui dar uma volta por aí, para espairecer e olhar a cidade com olhos de ver.
Hoje convidei o Conde do Barreiro Velho para me acompanhar.
Para quem não sabe, somos vizinhos e amigos de longa data, o que me leva a bater-lhe à janela do seu castelo, sempre que me quero aventurar pelas ruas da cidade velha.
O Conde Vlad, de seu nome, apesar do mau feitio, guia-me através dos labirintos das ruas e livra-me dos indesejáveis que, não me conhecendo e achando que eu não sou da cidade, me atiram piropos brejeiros ou tentam tirar nabos da púcara, com perguntas que não lembrariam nem ao Menino Jesus.
Uma coisa que eu aprecio nele é que é homem de poucas palavras. Só fala se eu lhe perguntar alguma coisa e quando conversa não evita entrar em assuntos cujos temas sabe que me desagradam. Gera-se desta forma um salutar confronto de ideias que acaba quase sempre, altas horas da madrugada, num dos bancos do jardim da Praça de Santa Cruz, mesmo junto da esquadra da PSP, cujos elementos já vieram por diversas vezes junto de nós, pensando que estávamos a discutir.
- “Você e a sua mania de trocar os vês pelos bês… Não acha que devia moderar essa tendência?”
Não lhe respondo. Acho que não passa de mais uma provocação igual à que costuma fazer-me quando diz que ando assustada. Bah! Eu assustada… Eu que bebi água do Bengo e andei por esse mundo fora, eu que já fui polícia, que já fui à China e ao Japão, Timor e Moçambique, que já fui conquistadora, que já estive três dias e meio no inferno e voltei. Este vizinho não está a ver o filme.
- “Você é como as pequenitas que têm medo do papão. Conhece estes versos?”.
Recita-me uns versos de Guerra Junqueiro e eu engulo em seco. Definitivamente o meu Bizinho hoje apostou em dar-me cabo da moleirinha. Não lembraria nem ao diabo, falar de “A Velhice do Padre Eterno”, agora que já não existe clero nem monarquia.
- “Mas existe um porco, vizinha. Um porco que abriu os olhos aos Barreirenses que estavam cegos. Já reparou que fizeram um imenso churrasco sem porco? Alguém se atirou para a fogueira no lugar dele e ardeu como se arde no inferno.”
Este Bizinho é o máximo. Tenho de concordar com ele.
Com porco ou sem ele, já nada no Barreiro poderá voltar a ser como dantes.
- “E as cinzas atraíram os ratos, vizinha. Há que combater agora os ratos e as baratas que vieram por acréscimo.”
Bocejei. Olhei para o relógio e a noite já ia alta. Retomámos o caminho de casa percorrendo as mesmas ruas e as mesmas vielas.
Até amanhã Bizinho. Fique bem.
- “Adeus vizinha. Amanhã convido-a para jantar uma sopinha de letras feita por mim. Espero que aceite.”
Abri a porta e entrei.
Sopinha de letras?
O que quererá ele dizer com isso?
-“Aceito sim, Bizinho. A que horas?”
- “À hora que lhe der jeito”.
Fechei a porta da rua à chave e subi.

Amanhã será um novo dia.

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