sexta-feira, 27 de junho de 2008

"FOREVER YOUNG"



Estou a escrever estas linhas ao som da música “Forever Young”, de Bob Dylan, um dos meus cantores preferidos. Uma canção emblemática do álbum Planet Waves, dos anos 70.
Vou traduzindo mentalmente as palavras, ao mesmo tempo que me invade aquele misto de náusea e de angústia que ultimamente tem tomado conta de mim.
Passam-me pelos olhos, velozes, cenas da minha alegre juventude e recordo com alguma ternura e muita tristeza aquele jovem transmontano, muito mais velho que eu, bonito, culto e inteligente, por quem um dia me apaixonei em Lisboa e que encontrei hoje, no Barreiro, quase irreconhecível na sua figura patética e colorida de um velho que quer ser adolescente.
Vem-me à memória aquele artigo de Joseph Epstein, “The Perpetual Adolescent” em que este disseca sem pena o processo “jovem para sempre”, resultante de algumas mentalidades dos pós anos 70, que procuraram desde sempre o elixir ou a fonte da eterna juventude, ao arrepio daquilo que Deus tem reservado para cada um de nós.
Epstein recorda-nos que antigamente a vida tinha a estrutura de uma peça aristotélica, com começo, meio e fim. Cada uma destas partes tinha prós e contras, mas a parte do meio, a vida adulta, era a parte mais séria, onde as coisas mais importantes aconteciam. A juventude era um estágio.
Hoje, no entanto, a juventude não é vista apenas como a parte mais bonita da vida, que devemos recordar. Trata-se de um objectivo para muitas pessoas, uma condição que a ciência, a moda e a indústria farmacêutica procuram tornar permanente. Todos fazem os possíveis para não se despregarem daquela época em que o indivíduo conquistou a liberdade para consumir o que quisesse, começando pelo sexo, drogas e rock’nroll e acabando em tudo o mais que o Mercado oferece. Por outro lado, é a fase da vida em que a energia, a ambição e a audácia são considerados valores absolutos. Epstein cita um empregado da Enron que, após a falência catastrófica da empresa, comentou: “O problema é que ali não havia ninguém que fosse adulto”.
Hoje, ao escrever este manifesto, sinto-me triste e um pouco amargurada porque aquele que amei, que era belo, inteligente e charmoso, se expõe hoje ao ridículo, sem ter essa noção, ao vestir roupas que não são para a sua idade e usando acessórios como se fosse um jovem inconsciente.
A canção de Dylan, curiosamente, diz: “Que Deus te abençoe e te ampare sempre. Que os teus desejos se realizem, e que possas fazer aos outros o que eles te fazem. Que construas uma escada para as estrelas, e possas subir cada degrau. Que cresças para ser justo, para ser verdadeiro. Que vejas sempre as luzes e percebas a verdade à tua volta. Que tenhas coragem, e saibas manter-te firme e forte. Que as tuas mãos estejam sempre ocupadas, e os teus pés sejam sempre ágeis. Que tenhas alicerces sólidos quando os ventos da mudança soprarem. Que o teu coração seja sempre alegre, e a tua canção possa ser sempre cantada... e que sejas jovem para sempre.”
Somente hoje (será tarde demais?), ao ver aquela figura ridícula daquele homem que não quer saber envelhecer, eu percebi que Dylan, naqueles longínquos anos 70, estava a desejar-nos que amadurecêssemos sem medo, ficássemos adultos sem remorsos, envelhecêssemos com sabedoria, recebêssemos a morte com a mesma humildade com que recebemos a vida e que, sobretudo, não magoássemos ninguém.

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