domingo, 22 de junho de 2008

PAREDES MEIAS



Por vezes acordo de madrugada com a sensação de que não estou só e que alguém está sentado ao meu lado, como que a velar-me o sono.

É uma sensação que me ficou desde os tempos de menina, quando as altas febres palúdicas de quando em vez me atacavam, para desespero dos meus pais, do meu pai em especial, que passava as noites ao meu lado, sentado na velha cadeira de baloiço em pau-preto, cantando baixinho para me tranquilizar.

Quando isso acontece, e porque sou dotada de um sexto sentido, apetece-me pegar no telefone e ligar ao meu pai, com receio de que tenha morrido e tenha vindo despedir-se de mim, em espírito, durante a noite.

A angústia apodera-se então dos meus sentidos e, por cobardia ou por outra coisa qualquer, que não sei explicar, aguardo pelo nascer do dia, de coração apertado, sempre à espera do pior, para lhe telefonar.

Ultimamente acontece-me com frequência.

Numa destas noites, eram para aí umas quatro horas da madrugada, ouvi alguém chorar convulsivamente no quarto ao lado. O quarto ao lado fica na moradia ao lado da minha. As casas antigas têm esse inconveniente. Embora restauradas e insonorizadas, não deixam de permitir certas indiscrições da vida quotidiana.

Era uma voz de homem. Chorava copiosamente e entre soluços amaldiçoava a vida que tem, a falta de recursos económicos, o afastamento de alguns amigos, a doença, o desamor, a queda dos negócios.

Ouvia-o a caminhar de um lado para o outro, desesperado na sua solidão.

Curiosamente, esse homem vivia com a mulher e um filho maior, na casa ao lado da minha e ambos estavam em casa nesse seu momento de desespero incontido.

Dei comigo a chorar com ele, a maldizer as suas penas como se fossem minhas também. Bati ao de leve na parede do meu quarto para mostrar solidariedade com aquela alma tão solitária que, embora vivendo com a família do seu lado, se encontrava mais só do que se estivesse sozinho.

Calou-se de repente, como se cala alguém que tenha sido compelido a fazê-lo.

Retribuiu o toque e, de repente, ouvi algo pesado a cair ao chão.

Depois o silêncio.

Um silêncio de morte.

Acordei já o sol ia alto, com um carro funerário à entrada do portão.

A mulher e o filho vinham carregados de negro.

As flores começavam a chegar.

O meu vizinho tinha-se suicidado.

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