domingo, 27 de julho de 2008

VOU DE FÉRIAS



Hoje, ao final da noite, inicio as minhas tão ansiadas férias.

Serão nove horas de viagem em direcção à terra que me viu nascer.

Não consegui despedir-me de todos os amigos.

Por isso, desejo a todos boas férias e que fiquem bem por cá.

Voltarei no dia 17 de Agosto.

Beijokas.

BARBARIDADE



Oito jovens, todos na casa dos vinte anos, foram barbaramente assassinados no Bairro do Sambizanga em Luanda.

Encontravam-se no Largo da Frescura, em convívio, debaixo de uma mulemba e num sítio onde existia a única luz das redondezas.

Eram cerca das 19 horas locais, já noite cerrada, pois em Angola, nesta altura, é Inverno.

Um grupo de malfeitores, saídos de uma Toyota Hiace branca, mandou-os deitar no chão e disparou à queima roupa, pondo-se em fuga logo de seguida.

A polícia diz que foi uma carrinha azul com vidros fumados.

Os jovens não estavam ligados ao crime organizado. Eram todos estudantes e trabalhadores e um deles, o Santinho, era acólito na Igreja do Bairro.

Trata-se do crime mais violento desde o fim da guerra civil, em 2002.

Morreram a cerca de 200 metros do sítio onde a polícia assassinou há dias, por engano, dois actores que rodavam um filme no Bairro do Sambizanga, sobre crime organizado.

A polícia diz que não sabe quem foi e pede ajuda a quem tenha informações.

Para mim, esta é uma história muito mal contada.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

FÉRIAS!



Aproxima-se a data das minhas férias.

É já no próximo Domingo que rumarei a África, a Deusa de todos os Continentes.

Vou pedir a Nossa Senhora da Muxima que me guarde, um dia, quando eu partir.

Vou cheirar o odor da terra molhada e pedir ao Sol que nunca nos abandone.

Vou apanhar chuva na Tundavala e descer a Leba até ao Tchivinguiro, a caminho da Lucira.

Vou colher rosas de porcelana e welwichias em flor, no deserto.

Vou abraçar a minha velha ama Arminda, que me viu nascer.

Vou dançar ao som dolente do batuque.

Vou cantar nas noites de Lua Cheia, à roda da fogueira.

Vou atravessar picadas e mololas por essa Angola fora.

Vou chorar e rir com o meu povo.

Vou banhar-me na praia morena.

Enfim!


Vou ser eu.

terça-feira, 22 de julho de 2008

ESTOU FARTA!



Estou a começar a ficar saturada deste país de merda.

Pago os meus impostos cá em Portugal, para que outros que nada fazem, usufruam do que tanto me custou a ganhar, durante uma vida inteira de muito trabalho e dedicação numa multinacional, com escritórios em vários países do mundo.

Esses tais de que falo, são aqueles do rendimento social de inserção e outros subsídios, que não querem fazer nenhum.

Este governo promove a preguiça, o facilitismo e o laxismo, sob a capa de um Robin dos Bosques caquético que em vez de tirar aos ricos ociosos, tira a quem trabalha e a quem produz, para alimentar vícios, em vez de os mandar trabalhar.

Hoje entrevistei doze candidatos a quatro vagas de auxiliar de manutenção para a minha empresa que é uma boa empresa.

O ordenado, na ordem dos oitocentos euros mensais, acrescidos dos restantes subsídios, não se pode considerar um bom ordenado. Mas também não se pode considerar que seja mau, atendendo a que há muitos licenciados em Portugal, a receber menos que isso.

Dessas doze pessoas, só duas aceitaram o lugar. As restantes tiveram a distinta lata de me dizer que como estavam com o subsídio de desemprego mais o rendimento social de inserção, não estavam interessados, pois recebiam mais do que oitocentos euros por mês.

Estou farta!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PARTIDARISMO OU CARNEIRISMO?



Como eleitora esclarecida, não me revejo em nenhum dos actuais potenciais candidatos políticos do Barreiro.

São sempre as mesmas figuras, muito pouco cultos, todos eles praticantes da arte do umbiguismo, aquela arte em que o autor de tal proeza consegue olhar para o seu próprio umbigo de uma forma extrema tal, que consegue sempre ver o mundo sob a forma do globo terrestre, girando sobre a sua barriga como se, sem essa plataforma de suporte, o mundo não girasse e para que tal acontecesse fosse apenas necessário aquele buraco, como condição essencial da vida humana.

Acresce o facto de possuírem também uma grande falta de sentido de Estado e de Direito.

Qualquer observador mais atento consegue descortinar que não são estes os políticos que nos servem.

Não estão politicamente nem academicamente preparados e não têm formação adequada.

Estou a lembrar-me de algumas cenas “passionais” muito recentes, envolvendo cartas e contra cartas entre políticos obtusos, que reivindicam para si e para o seu partido, o estatuto de grandes demiurgos, salvadores da pátria barreirense, lançando aos outros o ónus de todas as desgraças, enquanto esperam, com isso, conseguir o tão almejado trono de onde comandarão as suas marionetas e os seus homens e mulheres de mão, sob a égide partidária.

Partidarismo, ou carneirismo? Eis a questão.

Pela parte que me toca, bem podem pregar.

Não lhes reconheço qualquer legitimidade

quinta-feira, 17 de julho de 2008

FEITIÇO DA LUA



Engraçado o fascínio que a Lua sempre exerceu sobre mim.

Quando a vejo, ali parada no meio do céu, a olhar cá para baixo, lembro-me

- do Amor

- dos lobisomens

- dos duendes

- das sereias

- dos contos de fadas

- da magia

- da noite

- dos nossos sonhos

- do mar

- da tua canção

- da Lua do México

- da minha saudade

- dos teus abraços

E, por mais que te queira tirar de dentro de mim, lembro-me sempre de ti.

Serás para sempre o meu feiticeiro da Lua e envolver-me-ás, em cada noite, nos teus abraços, para eu sonhar que estamos juntos e que não partiste.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

ANDANDO POR AÍ...



Hoje fui andar sem destino pelas ruas do Barreiro.

Apesar do calor, corri todos os quelhos e vielas da cidade, a pé, coisa que já não me lembro de fazer há muito tempo.

Reparei que a cidade está suja e que as pessoas andam tristes.

Mesmo na chamada zona chique, os prédios, alguns deles, já não sabem o que é uma pintura e há sinais evidentes de degradação.

Parei, por instantes, no Centro de Saúde da Barbosa du Bocage. Não tem condições nem para os utentes nem para os funcionários.

É assim que o Barreiro quer ser a tal cidade do cinema, que tantos apregoam?

Não acredito.

A VIDA CONTINUA



Já se sabe que a vida está cheia de ironias. Mas a novidade reside precisamente em saber qual a ironia que se segue.

Desta feita, há coisas que não conseguimos interiorizar, de tão absurdas que nos parecem.

Vem isto a propósito da morte do meu melhor amigo.

Dizem que os homens não podem ser amigos das mulheres, o que é falso, redondamente falso.

O Rui era o meu melhor amigo. Adoptámo-nos reciprocamente desde aquele longínquo dia cinzento e frio, nos claustros da Faculdade de Direito de Coimbra, em que ambos, sendo caloiros, estávamos à mercê dos "doutores", sempre prontos a fazer das suas, nos seus rituais de praxe.

Foi uma empatia. Não direi amor à primeira vista. Não, não foi isso.

Da minha parte senti uma profunda atracção por aquele jovem muito elegante, bonito, culto e muito alegre, que falava da vida, como se a vida para ele fosse um acessório daqueles que se usa conforme a roupa que se veste.

Da parte dele, dizia-me, o que o atraiu em mim, foi a forma decidida e franca com que eu encarava os insígnes Mestres, e os questionava, quando era caso disso, não receando ficar naquela "lista negra" que todo o Professor Catedrático que se preze, elabora com desvêlo, a fim de constar dos anais anedóticos da história da sua Faculdade.

O Rui teve azar na vida, apesar de ser um rapaz bom, amigo do seu amigo, cumpridor de todos os mandamentos divinos e sociais.

O cancro minou-o e levou-o em pouco mais de dois anos.

Eu fiquei sem o meu melhor amigo. Fiquei sem o meu colo e a sombra daquela árvore que tantas vezes me abrigou, naqueles dias menos felizes, que todos temos.

Mas a vida continua. Foi ele que me disse, poucos minutos antes de partir.

Apertou-me a mão e disse: "Amiga, segue em frente, porque a vida continua".

Não vou esquecer nunca, os seus olhos azuis como lagos transparentes.

Mas a vida continua.

Até sempre Rui!

sábado, 12 de julho de 2008

PARA TI, RUI



"A UM AUSENTE


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste."

(Carlos Drummond de Andrade)

ADEUS RUI, ATÉ SEMPRE!



Hoje o Rui deixou-nos para sempre, aos 43 anos.

Partiu, a sorrir, desta vida tão efémera.

Disse-me que já estava preparado há muito e que não sentia qualquer medo.

Eu fiquei ali, ao seu lado, a vê-lo partir, sem poder fazer nada.

Limitei-me a falar baixo, a sussurrar, enquanto o meu amigo iniciava a sua viagem sem retorno, agarrado à minha mão.

Por que será que sussurramos perante a morte?

Não sei.

Teve tempo de dizer que gostava muito de todos os amigos e que deixava uma carta escrita para cada um de nós que privámos com ele, nos bons e nos maus momentos.

Partiu com aquele sorriso nos lábios, que iluminava tudo à sua volta.

Era a minha árvore e o meu colo.

A minha vida, sem ele, já não vai ser a mesma.

O Rui pediu-me que cantássemos para ele, amanhã.

Eu não sei se vou ser capaz.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

CONTRACEPÇÃO



Hoje foi um dia assaz movimentado.

Foi inaugurado o novo hospital de cuidados continuados, na Santa Casinha dos Pobres do Barreiro, com especial destaque para a sua nova unidade de contracepção.

Como anda por lá um misericordioso míope, tomador de Viagra e Ciális, que ataca as sopeiras e a cozinheira da cozinha nova, nas horas de expediente, o Confrade-mor exigiu que o dito fosse esterilizado, para obstar a que nasçam mais crianças anormais, contribuindo deste modo, de forma eugénica, para a pureza da raça na cidade do Barreiro e arredores.

Como foi utilizada uma nova técnica cirúrgica muito em voga no Afeganistão, fui contactada para, como representante do MP, fiscalizar a operação e garantir que fossem observados todos os procedimentos.

Como levei a minha digital, registei para a posteridade a imagem do dito cujo, já na mesa de operações, sob os cuidados de um cirurgião vindo especialmente de Viseu, para efectuar a intervenção.

OVELHICES



Na passada semana, numa entrevista à TVI, a primeira desde que foi eleita Presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite não disse quase nada sobre o que pensa fazer, se ganhar as eleições.

Entretanto foi dizendo que aceita as ligações homossexuais, embora esteja contra o seu reconhecimento, como se de um casamento se tratasse.

Ninguém se pronunciou quanto ao facto de Ferreira Leite ter manifestamente demonstrado não ter ideias para o País, mas sobre o não reconhecimento do casamento entre homossexuais, fizeram um ruído tremendo.

Tudo porque Manuela Ferreira Leite se calhar disse aquilo que a maior parte dos portugueses pensa: os homossexuais que se unam à vontade, mas daí a chamar-lhe “casamento” e terem os mesmos direitos que um homem e uma mulher que se unem com a função de constituir uma família e procriar, vai uma distância enorme.

Agora a moda – a malta anda sempre atrás da moda – é sustentar que os homossexuais têm o direito de se casarem entre si porque pagam impostos. Pagam impostos, logo, podem casar.

Para aqueles que me têm rotulado de “freira” conservadora (o que é bom conserva-se), tenho uma sugestão muito mais evoluída e progressista: mais do que um matrimónio gay, eu defendo o casamento com animais. E quem torcer o nariz não é nem moderno nem civilizado.

Como é possível negar a empatia sentida entre o pastor e uma das suas ovelhas felpudas?

Isto está bem de ver. Desde que o homem pague os seus impostos e a bichana tenha as vacinas em dia, não há qualquer motivo válido para não haver casamento.

Acho até que o tema deveria merecer prioridade, uma vez que tem profundas raízes na cultura lusitana: enquanto que em Portugal as marchas gay surgiram há meia dúzia de anos, as feiras de gado já se realizam desde os tempos do Feudalismo.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

VILANAGENS



Nesta modorra que se vai arrastando por este Verão suado, nem a língua se me afia nem a vontade de escrever se apronta.
Às vezes, só às vezes, algo me desperta e mexe com o meu delicado sistema nervoso.
Todos nós somos compostos por uma parte civilizada e por outra parte indígena. Por isso, gostaria de considerar, a título de constatação, as dificuldades que nós, seres ontogeneticamente imperfeitos e muito complicados, temos vindo a sentir, quanto à identificação e resolução de certos problemas que nos afligem no nosso dia a dia.
Como não podia deixar de ser, creio que até já comecei estas linhas cometendo algumas gaffes graves, a propósito daquilo que ousamos chamar "politicamente correcto".
Mas a verdade é que não sei bem como deveria classificar a nossa parte autóctone, sem ofender e provocar a fúria e o desprezo daquela nossa outra vertente civilizada.
Chamar-lhe selvagem, creio que seria injusto da minha parte. Mística, sim, talvez. Ou, quem sabe, membro daquela cultura paralela, que habita a floresta mental de cada um de nós.
Provavelmente, também não estarei muito bem, ao fazer esta distinção, já que isso discrimina liminarmente o nosso Eu indígena, o que também não é justo, pois cada uma dessas partes integra aquele todo que somos nós, como membros de uma comunidade a que, neste caso, optei por designar “tribo”.
O facto é que as “tribos”, pelo menos aquelas do Barreiro, que cheguei a conhecer de perto, têm uma maneira interessante e peculiar de lidar com certas situações inconvenientes e de imputar aos outros, a causa e o efeito de todos os seus males.
Vem isto a propósito de algumas atitudes e comportamentos de alguns indígenas Barreirenses e das suas famosas discussões académicas sobre o tudo e o nada. Muitas vezes, alguém da ”tribo” é compelido a assumir o papel de vilão a quem é atribuído um comportamento esquivo e pouco integrado, para bem da comunidade de amorfos. Quando algo corre mal, lá emerge o vilão na pessoa de um ser que pouco a pouco e convenientemente vai sendo isolado do grupo e elevado à condição de feiticeiro culpado de todas as coisas más que acontecem nesta vida. Na primeira oportunidade, surge então o tal grupo auto denominado de bravos guerreiros, que surpreenderá o vilão com uma sova de letra, ou até de cacete. Tal não será, porém, politicamente muito correcto, mas eles ainda vão acreditando que sim.
Apesar de todas aquelas camadas de verniz que ostentamos, bem lá no fundo ainda preservamos muitas reacções primitivas. O que eu quero dizer é que, de alguma forma, precisamos quase sempre de encontrar, perto de nós, um culpado para todos os nossos problemas. Aqueles que nos rodeiam, por vezes são tão diferentes, que tornam pouco objectiva a escolha do nosso alvo. Quando isso acontece e não existe consenso, o mais certo e garantido será haver pancadaria da grossa.
O resultado é que o nosso feiticeiro, causador, portanto, de todas as nossas desgraças, irá passar, cada vez mais, a ser escolhido de entre entidades abstractas para, assim, podermos atingi-lo com pauladas metafóricas, sempre que nos aprouver.
Longe vai o tempo em que, conforme a opção ideológica de cada um, podíamos atribuir todos os males do mundo aos comunistas ou ao imperialismo norte-americano. Havia, pelo menos, uma certa localização geográfica. Os comunistas, em geral, deveriam ter ligações emocionais a Moscovo, os mais exóticos à China e, os outros, a Cuba. Já os chamados lacaios do capitalismo, directa ou indirectamente, eram todos adeptos do Tio Sam e, provavelmente, instrumentos da CIA.
Mudaram-se os tempos, surgiram novos costumes e novas vontades. O império soviético desfez-se surpreendentemente, como se sempre tivesse sido uma miragem, a China perdeu todo o seu charme revolucionário e dedicou-se ao comércio, para desespero de uma Europa cada vez mais dependente e Fidel Castro deixou até de fumar os seus malcheirosos charutos já que, segundo as más-línguas, só o fazia como forma de se precaver do contacto com os russos, contra aqueles horrorosos beijos na boca. Já os Estados Unidos, não mais prevalecendo o cenário de duas grandes conspirações concorrentes, passou a acreditar ainda mais no seu papel de demiurgo da história e, para não deixar ninguém desamparado, oferece um vasto leque de banalidades teóricas para todos os gostos. Não só académicos, empresários e cientistas se podem abastecer do que há de melhor para um bom paladar intelectual, como dispõe ainda de um "fast food" politicamente correcto, ao alcance de qualquer um.
É preciso, portanto, escolher novos vilões e, de acordo com a tendência citada, devemos preferi-los ainda mais impessoais e indeterminados.
Para atender aos resíduos mais persistentes da nossa metade mística devem, também, ser tão incompreensíveis quanto possível, excepto, é claro, para os "iluminados". Em nosso socorro, felizmente, têm surgido alguns candidatos perfeitos que nos livram da extraordinária angústia de ver as coisas a dar para o torto sem sabermos porquê.
Deixemos a “tribo” e partamos para o Mundo porque é lá que tudo acontece. O primeiro vilão a citar, a globalização, além do seu próprio repertório de maldades, funciona como uma espécie de pré-requisito para os demais. Já não estamos na “tribo” mas sim numa sociedade moderna e integrada por vários mecanismos de comunicação. Nesse contexto, também os vilões deverão sê-lo na mesma proporção. Devem e podem, agora, ser impessoais, abstractos, geograficamente indeterminados e universais. Assim, a coberto da chamada globalização, surgirão, pelo menos, mais dois vilões. Um de natureza teórica e outro, teoricamente, da natureza. O vilão teórico é um tal neo-liberalismo, capaz de perversidades incríveis, como despedir trabalhadores, articular conspirações, explorar crianças e desamparar velhinhos além, é claro, de provocar crises do petróleo e gripes em frangos e galinhas asiáticos. Já o vilão natural, para nós Barreirenses, não será certamente o recém-descoberto fenómeno "El Niño" que, de entre outras façanhas, consegue transformar o Verão em Inverno e vice-versa, importar tornados, furacões, poluir o ar, entupir os esgotos e esburacar as ruas, comprometer a agricultura e até o nosso humor.
Para todos nós, membros desta comunidade à beira rio plantada, o vilão natural será aquele suposto malfeitor que habita dentro de cada um de nós, tão estranho, desconhecido e misterioso, quanto qualquer feiticeiro da “tribo”, que povoa as nossas fantasias, os nossos sonhos e protagoniza todos os nossos pesadelos.

terça-feira, 8 de julho de 2008

EU, MECINHA (4)



Hoje está muito calor.

Despi o meu vison para arejar e fui dar uma volta pela Miguel Bombarda.

Passei na Casa Fernandes para comprar qualquer coisa onde gastar dinheiro e dei de caras com o misericordioso.

Parecia uma árvore de Natal, todo enfeitado.

O empregado, solícito, mostrava-lhe vários apetrechos para introduzir na "ranhura".

Aquele agora está assim.

Adora que lhe enfiem qualquer coisa no orifício, para ver se saem bolinhas.

Enfim, gostos não se discutem.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

EU, MECINHA (3)



Ora cá estou eu novamente.

Vim até casa para mudar de roupa para a janta e como tinha um bocadinho livre, resolvi aproveitar para escrever mais um capítulo do meu romance.

Hoje fui para os lados da Santa Casa e fui lanchar ao Café Jardim.

Adivinhem quem estava lá. Um troglodita míope, vestido de mariconço que tentou seduzir-me à frente de toda a gente.

Claro que eu, moçoila que não gosta nada de exibicionismos, não lhe dei conversa nenhuma.

Quando saí do café, o dito cujo estava parado em frente ao carro do santíssimo, todo nu em pelota, exibindo a sua pilinha de anjinho barroco, que a Marilyn tem uma trabalheira do caraças para encontrar.

Fiquei a pensar com os meus botões que já não servem a laca e as talas que pedi emprestadas aos Bombeiros do Barreiro.

Acho mesmo que vou ter de o aconselhar a comprar uma prótese insuflável daquelas que até levantam quando se utiliza o comando da porta da garagem.

O homem não se convence que já está morto.

Agora parece que fez uma tatuagem na piroca a dizer: "eat me!".

Acho que alguém da casa dos pobres ou do Hospital, vai ficar engasgada com aquela minhoca anã.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

INTERLÚDIO



Aproximam-se férias.

Vou ter de despachar algum serviço que tem prazos-limite.

Também tenho os filhotes de uns amigos que me pediram algum apoio nas cadeiras de Finanças Públicas e Economia Política, para os exames de Julho e de Setembro, na Faculdade.

Os meus velhinhos também precisam de algum apoio e de alguma companhia.

Por isso, não sei quando voltarei, em força, a escrever tão amiúde.

Mas irei escrevendo.

Até que a mão me doa.