quarta-feira, 16 de julho de 2008

A VIDA CONTINUA



Já se sabe que a vida está cheia de ironias. Mas a novidade reside precisamente em saber qual a ironia que se segue.

Desta feita, há coisas que não conseguimos interiorizar, de tão absurdas que nos parecem.

Vem isto a propósito da morte do meu melhor amigo.

Dizem que os homens não podem ser amigos das mulheres, o que é falso, redondamente falso.

O Rui era o meu melhor amigo. Adoptámo-nos reciprocamente desde aquele longínquo dia cinzento e frio, nos claustros da Faculdade de Direito de Coimbra, em que ambos, sendo caloiros, estávamos à mercê dos "doutores", sempre prontos a fazer das suas, nos seus rituais de praxe.

Foi uma empatia. Não direi amor à primeira vista. Não, não foi isso.

Da minha parte senti uma profunda atracção por aquele jovem muito elegante, bonito, culto e muito alegre, que falava da vida, como se a vida para ele fosse um acessório daqueles que se usa conforme a roupa que se veste.

Da parte dele, dizia-me, o que o atraiu em mim, foi a forma decidida e franca com que eu encarava os insígnes Mestres, e os questionava, quando era caso disso, não receando ficar naquela "lista negra" que todo o Professor Catedrático que se preze, elabora com desvêlo, a fim de constar dos anais anedóticos da história da sua Faculdade.

O Rui teve azar na vida, apesar de ser um rapaz bom, amigo do seu amigo, cumpridor de todos os mandamentos divinos e sociais.

O cancro minou-o e levou-o em pouco mais de dois anos.

Eu fiquei sem o meu melhor amigo. Fiquei sem o meu colo e a sombra daquela árvore que tantas vezes me abrigou, naqueles dias menos felizes, que todos temos.

Mas a vida continua. Foi ele que me disse, poucos minutos antes de partir.

Apertou-me a mão e disse: "Amiga, segue em frente, porque a vida continua".

Não vou esquecer nunca, os seus olhos azuis como lagos transparentes.

Mas a vida continua.

Até sempre Rui!

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