quarta-feira, 9 de julho de 2008

VILANAGENS



Nesta modorra que se vai arrastando por este Verão suado, nem a língua se me afia nem a vontade de escrever se apronta.
Às vezes, só às vezes, algo me desperta e mexe com o meu delicado sistema nervoso.
Todos nós somos compostos por uma parte civilizada e por outra parte indígena. Por isso, gostaria de considerar, a título de constatação, as dificuldades que nós, seres ontogeneticamente imperfeitos e muito complicados, temos vindo a sentir, quanto à identificação e resolução de certos problemas que nos afligem no nosso dia a dia.
Como não podia deixar de ser, creio que até já comecei estas linhas cometendo algumas gaffes graves, a propósito daquilo que ousamos chamar "politicamente correcto".
Mas a verdade é que não sei bem como deveria classificar a nossa parte autóctone, sem ofender e provocar a fúria e o desprezo daquela nossa outra vertente civilizada.
Chamar-lhe selvagem, creio que seria injusto da minha parte. Mística, sim, talvez. Ou, quem sabe, membro daquela cultura paralela, que habita a floresta mental de cada um de nós.
Provavelmente, também não estarei muito bem, ao fazer esta distinção, já que isso discrimina liminarmente o nosso Eu indígena, o que também não é justo, pois cada uma dessas partes integra aquele todo que somos nós, como membros de uma comunidade a que, neste caso, optei por designar “tribo”.
O facto é que as “tribos”, pelo menos aquelas do Barreiro, que cheguei a conhecer de perto, têm uma maneira interessante e peculiar de lidar com certas situações inconvenientes e de imputar aos outros, a causa e o efeito de todos os seus males.
Vem isto a propósito de algumas atitudes e comportamentos de alguns indígenas Barreirenses e das suas famosas discussões académicas sobre o tudo e o nada. Muitas vezes, alguém da ”tribo” é compelido a assumir o papel de vilão a quem é atribuído um comportamento esquivo e pouco integrado, para bem da comunidade de amorfos. Quando algo corre mal, lá emerge o vilão na pessoa de um ser que pouco a pouco e convenientemente vai sendo isolado do grupo e elevado à condição de feiticeiro culpado de todas as coisas más que acontecem nesta vida. Na primeira oportunidade, surge então o tal grupo auto denominado de bravos guerreiros, que surpreenderá o vilão com uma sova de letra, ou até de cacete. Tal não será, porém, politicamente muito correcto, mas eles ainda vão acreditando que sim.
Apesar de todas aquelas camadas de verniz que ostentamos, bem lá no fundo ainda preservamos muitas reacções primitivas. O que eu quero dizer é que, de alguma forma, precisamos quase sempre de encontrar, perto de nós, um culpado para todos os nossos problemas. Aqueles que nos rodeiam, por vezes são tão diferentes, que tornam pouco objectiva a escolha do nosso alvo. Quando isso acontece e não existe consenso, o mais certo e garantido será haver pancadaria da grossa.
O resultado é que o nosso feiticeiro, causador, portanto, de todas as nossas desgraças, irá passar, cada vez mais, a ser escolhido de entre entidades abstractas para, assim, podermos atingi-lo com pauladas metafóricas, sempre que nos aprouver.
Longe vai o tempo em que, conforme a opção ideológica de cada um, podíamos atribuir todos os males do mundo aos comunistas ou ao imperialismo norte-americano. Havia, pelo menos, uma certa localização geográfica. Os comunistas, em geral, deveriam ter ligações emocionais a Moscovo, os mais exóticos à China e, os outros, a Cuba. Já os chamados lacaios do capitalismo, directa ou indirectamente, eram todos adeptos do Tio Sam e, provavelmente, instrumentos da CIA.
Mudaram-se os tempos, surgiram novos costumes e novas vontades. O império soviético desfez-se surpreendentemente, como se sempre tivesse sido uma miragem, a China perdeu todo o seu charme revolucionário e dedicou-se ao comércio, para desespero de uma Europa cada vez mais dependente e Fidel Castro deixou até de fumar os seus malcheirosos charutos já que, segundo as más-línguas, só o fazia como forma de se precaver do contacto com os russos, contra aqueles horrorosos beijos na boca. Já os Estados Unidos, não mais prevalecendo o cenário de duas grandes conspirações concorrentes, passou a acreditar ainda mais no seu papel de demiurgo da história e, para não deixar ninguém desamparado, oferece um vasto leque de banalidades teóricas para todos os gostos. Não só académicos, empresários e cientistas se podem abastecer do que há de melhor para um bom paladar intelectual, como dispõe ainda de um "fast food" politicamente correcto, ao alcance de qualquer um.
É preciso, portanto, escolher novos vilões e, de acordo com a tendência citada, devemos preferi-los ainda mais impessoais e indeterminados.
Para atender aos resíduos mais persistentes da nossa metade mística devem, também, ser tão incompreensíveis quanto possível, excepto, é claro, para os "iluminados". Em nosso socorro, felizmente, têm surgido alguns candidatos perfeitos que nos livram da extraordinária angústia de ver as coisas a dar para o torto sem sabermos porquê.
Deixemos a “tribo” e partamos para o Mundo porque é lá que tudo acontece. O primeiro vilão a citar, a globalização, além do seu próprio repertório de maldades, funciona como uma espécie de pré-requisito para os demais. Já não estamos na “tribo” mas sim numa sociedade moderna e integrada por vários mecanismos de comunicação. Nesse contexto, também os vilões deverão sê-lo na mesma proporção. Devem e podem, agora, ser impessoais, abstractos, geograficamente indeterminados e universais. Assim, a coberto da chamada globalização, surgirão, pelo menos, mais dois vilões. Um de natureza teórica e outro, teoricamente, da natureza. O vilão teórico é um tal neo-liberalismo, capaz de perversidades incríveis, como despedir trabalhadores, articular conspirações, explorar crianças e desamparar velhinhos além, é claro, de provocar crises do petróleo e gripes em frangos e galinhas asiáticos. Já o vilão natural, para nós Barreirenses, não será certamente o recém-descoberto fenómeno "El Niño" que, de entre outras façanhas, consegue transformar o Verão em Inverno e vice-versa, importar tornados, furacões, poluir o ar, entupir os esgotos e esburacar as ruas, comprometer a agricultura e até o nosso humor.
Para todos nós, membros desta comunidade à beira rio plantada, o vilão natural será aquele suposto malfeitor que habita dentro de cada um de nós, tão estranho, desconhecido e misterioso, quanto qualquer feiticeiro da “tribo”, que povoa as nossas fantasias, os nossos sonhos e protagoniza todos os nossos pesadelos.

Sem comentários: