quinta-feira, 21 de agosto de 2008

CARTA A NINGUÉM



Hoje, nas minhas arrrumações, encontrei uma velha caixa de cartão que julgava perdida para sempre.

Aquela caixa continha uma parte da minha vida que não cheguei a viver, se é que se pode dizer que não se viveu, vivendo.

Lá estavam as minhas fitas azuis escuras, todas escritas com mensagens de sorte e de esperança, o bilhete do saudoso Prof. Paulo Quintela felicitando-me pela média obtida e o "cachucho" de letras, de oiro já sujo e safira azul brilhante, que recebi como presente. Tudo cuidadosamente embrulhado em papel de celofane já pardo, porque o tempo não se compadece com brancuras.

Desculpa. Sempre sonhaste para mim uma cátedra de professora de línguas que estudei só para te fazer a vontade. Nos meus 22 anos eu sonhava outro sonho que não era o teu e, por isso, optei por outro caminho.

Ficaste triste, eu sei, quando me viste mais tarde com fitas vermelhas e um anel de rubi vermelho que não me tinhas dado.

Mas se isso te fizer feliz, digo-te que sábado pela manhã lá estarei como se fosses tu, junto de todos aqueles que um dia comigo receberam fitas azuis e aneis de safiras azuis brilhantes.

Falarei todas as línguas que me ensinaste a falar e a escrever e, por uns dias, terei a convicção que estarás sempre junto de mim, apesar de saber que já partiste há muitos, muitos anos atrás.

Um dia, as minhas fitas vermelhas e as azuis juntar-se-ão às tuas azuis e ficaremos juntas para sempre. Os meus dois aneis repousarão para sempre ao lado do teu, numa caixa de cartão que outro alguém guardará com o nosso nome e sentirá saudades nossas.

Um dia, descansaremos em paz.

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