quarta-feira, 3 de setembro de 2008

"MEA CULPA"



Nos meus momentos de reflexão, dou por mim a questionar-me sobre aquele sentimento que ao longo das nossas vidas nos vai corroendo e matando aos poucos: a culpa.
Por mais que medite, não consigo vislumbrar o que é e quando poderemos falar de culpa. Sempre entendi esse sentimento como um sentimento menor, que aos poucos vai tomando conta dos nossos sentidos, e que muitas vezes nos impede de evoluirmos como pessoas e de sermos nós mesmos.
Agimos com maior ou menor consciência e cometemos muitos erros que não remediamos. Causamos danos a terceiros e não temos a humildade suficiente para os assumirmos. Preferimos falar de culpa, como se esse facto fosse bastante para atenuar o erro que não reparámos.
Ninguém quer casar com a culpa
A culpa não se safa. Ninguém a quer. Nasce, morre e renasce, mas está sempre só. Ninguém gosta dela. Todos a querem longe. Cheira a cadáver.
Todos sabemos que ela existe. A culpa anda ao nosso lado, persegue-nos. Às vezes dizem-nos que todos temos a culpa, porque é a maneira mais fácil de dizer que ninguém a tem.
Mas a culpa nunca andou só. A culpa anda sempre acompanhada. Hoje anda com um, amanhã com outro. A culpa anda com todos. A culpa anda com muitos ao mesmo tempo. Deve ser por isso que ninguém a quer. A culpa sempre foi uma galdéria, uma perdida.
A culpa tem uma doença transmissível. Todos já fomos culpados em algum momento da nossa vida. A culpa já nos apanhou numa esquina qualquer, mas nós banimo-la sempre. Não queremos que saibam que a temos. Temos vergonha dela. A culpa é perigosa. A culpa é má. A culpa traz-nos problemas. A culpa não devia existir. Mas a culpa existe. A culpa está sempre presente. Às vezes a culpa é inofensiva. A culpa às vezes transforma-se, muda de nome. Por vezes chamam-lhe erro. Mas essa metáfora é uma armadilha. Por trás do erro a culpa emerge. Não há forma de fugir dela. A culpa está sempre presente. Não nos larga.
Não adianta. A culpa está lá. Não podemos fingir que não existe.
Temos de viver com ela. Temos de saber lidar melhor com a culpa. Afinal a culpa só existe porque nós existimos. A culpa existe se formos verdadeiramente culpados. Se calhar a culpa não será assim tão má. Se calhar, nós é que teremos culpa de termos a culpa.
Assunto complexo e com tantas variáveis que me parece difícil esgotá-lo. Mas, podemos sempre reflectir sobre alguns aspectos que nos proporcionem uma maior compreensão dos motivos desse sentimento que, durante toda a vida, carregamos nos ombros e nos diminui.
Culpamo-nos por tudo e por nada e culpamos os outros de igual modo. Dizemos que a culpa não pode morrer solteira e, salvo raras excepções, achamos sempre que a culpa é sempre do outro. Não me parece que este comportamento seja adequado ou dignifique a espécie humana. Entendo, antes, que a culpa tem características próprias e pode ser gerada por vários factores.
São apenas algumas causas que podem gerar o sentimento de culpa, mas a culpa pode ter outras variantes. Podemos achar que estamos doentes e a culpa é nossa, podemos pensar que temos culpa, quando nada fizemos para evitar uma qualquer situação de ruptura ou de omissão.
A minha visão sobre este ou qualquer outro assunto, nunca foi nem será uma verdade absoluta, mas também não será, de todo, descabido, se procurarmos saber por que razão muitas vezes nos sentimos culpados e culpamos os outros.
Tenho para mim que o mais indicado é sempre o assumir das nossas responsabilidades, antes de nos culparmos ou culparmos alguém, porque a culpa faz de nós vítimas da nossa própria imaturidade e apenas nos traz estagnação, não nos permitindo evoluir.
Quando assumimos a responsabilidade dos nossos erros, será uma mais-valia, pois assim seremos capazes de mudar o que quisermos.
Se assim não for, corremos o risco de, um dia mais tarde, termos necessidade de dizer que, se a culpa é nossa, poderemos pô-la em quem quisermos.
Sim, porque tem de haver sempre dois lados. O lado do Bem e o lado do Mal. O lado das vítimas, “coitadinhas” e o lado dos “culpados”, esses grandes filhos de uma culpa.

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