sábado, 8 de novembro de 2008

A NOVA CATEDRAL



Ultimamente tenho andado com muito pouca disposição para socializar e conviver com outras pessoas, sejam elas amigos ou simplesmente conhecidos.
De há uns tempos para cá, sinto como que uma saturação que não é habitual em mim, pois sempre gostei de conviver, reunir com os amigos, conversar, trocar pontos de vista e pregar algumas partidas.
Vem isto a propósito da inauguração do novo Fórum, para a qual fui convidada, na qualidade de representante de uma empresa associada da minha, com duas lojas abertas naquele local, cujo pessoal foi seleccionado por mim e pela minha equipa de trabalho.
Como não me apetecia ir, fiz os possíveis para me escapar do evento. Mas não consegui. Lá tive de gramar o acontecimento, pese embora o facto de nesse dia estar com uma neura do tamanho de um comboio.
Para não ir sozinha, convidei o meu vizinho Conde do Barreiro Velho a acompanhar-me. Primeiro deu-me uma valente nega, mas depois quando lhe disse que podia levar o seu anel de brasão e o seu smoking, ficou hesitante. Este meu vizinho é mesmo vaidoso.
Combinámos encontrar-nos à porta do meu serviço, em Lisboa. Bastava dar-me um toque que eu desceria logo de seguida.
Assim como assim, quando dei conta, tinha-o no meu gabinete à minha espera. Fiquei admirada porque o segurança não é de deixar subir ninguém que não esteja devidamente autorizado por mim. Mas ele lá conseguiu convencê-lo e o que é facto é que o meu vizinho ali estava, a mexer e a cuscovilhar-me tudo, com aquele seu ar irónico, que o caracteriza. Ficou admirado porque o segurança se levantava sempre que qualquer pessoa falava com ele e tinha as unhas limpas e os dentes brancos.
Foi só o tempo de desligar os computadores, pegar na chave do carro e rumar até ao Barreiro onde tudo se iria passar. Pelo caminho não disse uma palavra que fosse. Eu mirava-o pelo canto do olho e não conseguia disfarçar a curiosidade que senti em relação ao pequeno saco que ele transportava e que tentava esconder de mim, sem êxito.
- Vizinho, posso saber o que leva aí?” “Não me diga que leva farnel. Aquilo é uma inauguração e deve haver por lá comes e bebes. Não havia necessidade de vir prevenido.”
Respondeu-me mal-humorado: “Lá está você a querer controlar-me! Concentre-se na condução e veja lá se não excede os limites de velocidade.” Não liguei. Ele é sempre assim quando lhe peço para vir comigo a algum lugar. Detesta que eu lhe interrompa os pensamentos. Amochei como sempre amocho, quando ele me grita.
Lá chegámos ao local da festa e eu pus o meu vizinho à minha frente, para ver se passava despercebida no meio da multidão. Lá fomos circulando e, a páginas tantas, vi-me na obrigação de controlar o Conde que, ao ver as raparigas prateadas com as antenas na cabeça, rodeadas de comida por todos os lados, quis ir chamar a ASAE e a Polícia Judiciária.
“A vizinha já viu isto?. Isto é um caso de polícia. Pelos vistos vão comer as raparigas e puseram os aperitivos junto ao traseiro delas, para acompanhar.”. E, dizendo isto, enfia-se debaixo da mesa de uma delas, munido do tal saco misterioso.
A moçoila desata a gritar pelo Carlos Humberto que, satisfeito, continuou como se nada fosse, a cumprimentar as altas individualidades. Nisto o meu vizinho saltou lá debaixo, de pedra-pomes em punho, a dizer que as mecinhas tinham as unhas imundas e que era preciso alguém fazer alguma coisa.
Está claro que eu fingi que não era nada comigo. Disfarcei e comecei a circular por entre os convivas, só para ouvir as conversas.
Estava lá uma vereadora vestida “made in China”, com um vestido-quimono, acetinado, de fundo creme, estampado de riscos pretos, castanhos e beiges, com uma écharpe castanha à volta do pescoço e um casaco castanho, ao dependuro no braço esquerdo. Mecinha muito brega, aquela. Mal vestida, de cabelos compridos, sem corte e penteados aos canudos, coisa do século XIX, que já não se usa nos dias de hoje. Tive vontade de lhe deixar a morada e o telefone do meu cabeleireiro, para ela marcar uma sessão e um lifting. Ao lado estava um colega seu, de partido, de casaco desabotoado e segurando um cálice de vinho do Porto como se fosse uma tigela da sopa dos pobres da Sagrada Mansão. Falta de “chá”.
O Papa-hóstias lá estava também, untuoso no seu fato e gravata azul de motorista dos TCB’s, com o seu ar inconfundível de azeiteirola, a tentar falar com o holandês e os outros que não lhe passaram cartuxo.
O novo Padre da Paróquia estava lá também com o seu ar de desportista radical, ao lado da Regina Janeiro que também ia muito mal vestidinha e com os cabelos desgrenhados.
No meio daquilo tudo, quem se safou foram os dois velhotes que não arredaram pé das mesas dos comes e bebes, até ao final. Comiam e bebiam como se aquele fosse o último dia das suas vidas. Gandas velhotes!
O meu vizinho também acabou por se safar bem, pois eu enfiei-o numa das nossas lojas, onde ele, desvendando finalmente o segredo do seu saco misterioso, começou a mostrar as fotos que tirou debaixo da mesa, aos interiores das mecinhas prateadas e das moçoilas que se aproximavam para atacar aquele creme cor de rosa.
O meu vizinho estava muito satisfeito. Não estava feliz, porque isso de felicidade tem muito que se lhe diga.
Assim acabou a inauguração e eu consegui passar despercebida.
Para o ano haverá mais, noutro concelho aqui perto.

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