
Hoje preciso de escrever.
Há dias em que uma pessoa não é de ferro.
Acordei ao som do meu telemóvel barulhento. Aquele que só recebe chamadas de família e de amigos que considero mesmo amigos.
Quando ele toca, fico logo em sobressalto, pois é sinal que algo de grave ou de importante se passou.
Não me enganei.
Recebi a notícia que a minha inquilina mais idosa, aquela velhinha adorável, faleceu durante a madrugada deste Domingo.
Estou triste. Era uma senhora de 95 anos, sozinha, sem família, que desde os 8 anos de idade, serviu em casas de altas individualidades portuguesas e estrangeiras.
Aprendeu a ler e a escrever, porque uma das meninas de uma dessas famílias, resolveu ensinar-lhe. Era uma senhora no trato e na aparência e eu deleitava-me a ouvi-la contar as suas histórias de vida, que sempre me encantaram.
Escrevia as suas memórias num caderninho e alguns poemas da sua autoria.
Há seis anos fizemos um trato: eu deixá-la-ia morar naquela casa sem pagar nada e em troca ela deixar-me-ia o seu caderninho, em testamento.
Diz quem viu, que o tal caderninho lá estava em cima da mesinha de cabeceira, ao seu lado, com uma dedicatória à minha pessoa e a cópia de um testamento dentro, a fazer-me herdeira de todos os seus pertences que incluem uma gata siamesa e um periquito verde.
Estou triste.
Pessoas como ela, deviam ser eternas.
Como pode alguém morrer sem ter um abraço?
Deus por vezes é cruel.
Ela não merecia isso.





