domingo, 1 de março de 2009

MALVADEZAS



Vim passar o fim de semana a uma cidadezinha sueca, que faz fronteira com a Noruega.

E isto porque a D.ª Mimi arranjou um namorado sueco, viúvo, como ela, falante de português do Brasil, onde viveu alguns anos, que a convidou a passar estes dois dias em casa dele.

A D.ª Mimi, apesar de eu a ter incentivado a vir sozinha, não quis, de modo algum, fazê-lo, por razões que se prendem com a opinião do seu único filho, pelo que tive de assumir o papel ingrato de ser o seu "pau de cabeleira".

Hoje resolvi pregar-lhe uma partida que já andava há tempo para pregar.

A D.ª Mimi sempre foi muito curiosa e amante de aprender coisas novas. Todos os dias me pedia para a ensinar a trabalhar no computador, porque queria aprender a mandar e-mails para o filho e nora que vivem no Porto.

O namorado dela, que é reformado da marinha sueca, domina na perfeição as novas tecnologias e, vai daí, nós dois resolvemos pôr a D.ª Mimi a navegar na net.

Comecei pelo Google Earth e, com a desculpa de que o Bergwist queria conhecer a terra dela, fiz com que a D.ª Mimi acreditasse que estava a ver as suas aldeias em tempo real, como se estivesse a sobrevoá-las de avião.

Depois arrependi-me, porque ela ficou muito confusa mas ao mesmo tempo emocionada.

A D.ª Mimi nasceu em Saldonha, há 62 anos, uma aldeia do concelho de Alfândega da Fé, mas foi criada em Peredo, outra aldeia vizinha, onde veio a casar e a enviuvar aos 30 anos de idade, com um filho bébé.

Foi lá que a conheci, em casa de uns amigos, onde se encontrava a trabalhar. Esses amigos mudaram-se entretanto para Lisboa e ela não quis acompanhá-los. Fiz-lhe a proposta para ficar comigo no Porto, onde eu morava e trabalhava na altura, e ela aceitou logo, não sei por que motivo.

Passados quase 18 anos, acho que vou ter de lhe fazer essa pergunta.

De modos que foi uma malvadeza que fiz, fazer acreditar à D.ª Mimi que estava a ver a Rua do Terreiro, em Saldonha, onde nasceu, com carros a passar e a piscina da casa do poeta com pessoas a nadar lá dentro.

Gravei a imagem e imprimi-a, porque ela ficou muito feliz por saber que a sua terra estava na net.

Agora, no silêncio do meu quarto, penso que ainda há pessoas simples, que ficam felizes com pouco.

Olhando de novo a imagem da aldeia, recordo aquele dia do meu aniversário. Fazia 19 anos e furei dois pneus à entrada da aldeia.

Foi o Senhor Francisco que me ajudou a mudá-los e me deu de jantar nesse dia.

O Senhor Francisco já morreu há muitos anos e era um homem bom. Nada parecido com alguns trastes que zanzam por aí.

Tenho saudades dele.

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