sábado, 4 de abril de 2009

"CONTRADIÇÕES"



Não resisti a transcrever o texto que se segue, escrito pelo insígne Professor de Arqueologia da Universidade do Porto, Vítor Oliveira Jorge, proprietário do Blog "Trans-ferir.blogspot.com", um dos meus preferidos.

Em poucas palavras e numa curta reflexão, ele disse tudo. Ora leiam esta pérola de texto:

"O extremo desgosto que uma puta provoca é que deixou de ser uma pessoa inteira, e se tornou, mesmo que por momentos, uma mercadoria. E nessa qualidade é impossível estabelecer com ela uma relação de pessoa a pessoa, quer dizer, desenvolver uma fantasia, antes ou depois do seu "serviço". A cumplicidade não existe, tudo está reduzido à abstracção plana do dinheiro.
E todavia, gostamos de uma mulher em atitude provocante, de uma mulher a quem nos apetece chamar "puta" quando atingimos ou estamos prestes a atingir a esfera do auge, quando penetramos no círculo do seu íman: mal de nós se não fosse assim. Mas aí traímos uma velha tendência para a desqualificação como mercadoria do nosso mais íntimo e profundo alvo de desejo: a vontade de espezinhar, de reduzir a um objecto, o ser com quem procuramos ter prazer, a quem procuramos dar prazer. Ou seja, no imaginário mais íntimo de nós, homens, está de certo modo sempre uma "puta" como objecto de desejo. Uma mercadoria. E por isso nos é tão difícil conjugar a amiga que é uma pessoa, com a mesma amiga que nos desperta desejo, e que temos secretamente de ver como puta, de imaginar como puta, para a poder desejar. Contradição insanável que conduz necessariamente à frustração. E que cada vez mais é uma contradição simétrica, pois existe também do lado da mulher, olhando o homem como um puro objecto de gozo. O gozo em estado puro é uma mercadoria abstracta, um produto do capitalismo. O seu cerne indecoroso, porque matou as pessoas, tornando-as mercadorias na sua consciência e na sua própria fantasia cúmplice.
Por mim tenho a honra (ou a secreta frustração?!...) de nunca ter sido cliente de uma puta, de nunca ter conseguido, de nunca ter sido objecto de um serviço, de uma troca económica desse tipo. É-me impensável. Um homem que "vai a putas" vai sempre a putas quando está com qualquer outra mulher. Mas, não seremos afinal todos um pouco assim, apenas em graus diferentes de experiência/frustração?... sejamos honestos nas nossas contradições.
Estes temas são sempre desagradáveis, porque querendo (supostamente) abstrair, uma pessoa está sempre é a falar de si. Daí o carácter impúdico, no sentido de subtilmente pornográfico, castrador, de qualquer sexologia. O discurso trai a vontade do desabafo quando se esconde por detrás dos protocolos da ciência: como a enfermeira nua debaixo da bata profissional, ou o médico disfarçadamente libidinoso palpando clinicamente a "sua paciente", cheio de atenção objectiva.".

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