domingo, 26 de abril de 2009

"Ex nihilo"


Mais um dia de trabalho intenso.
Entro apressada e esfomeada no Restaurante. Escolho uma mesa afastada, num canto, pois quero aproveitar o pouco tempo de que disponho, neste dia atribulado, para comer e acabar a programação que vou ter de enviar aos espanhois, por e-mail, para a reunião do dia seguinte, pela manhã.
Peço um prego no prato, uma salada e um sumo de laranja natural. Não sei porquê, quando estou com pressa, opto sempre pelo velho bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Mas o ovo tem de ser virado e bem passado. Vá-se lá saber porquê.
Abro o notebook e apanho um valente susto, com aquela vozinha sumida, atrás de mim:
- Senhora, tens uma moeda?
- Não, não tenho, miúdo.
- Só uma moedinha, por favor. É para comprar um pão.
É uma criança. Detenho-me a olhar para ele e, por momentos, fico tentada a correr com aquele pequeno intruso. Mas algo me faz mudar de ideias.
- Está bem. Vou pedir um pão para ti.
As minhas caixas de correio electrónico estão cheias de mensagens. Fico distraída a ler poesias e rio das piadas malucas que muitos amigos têm por hábito enviar-me. Uma das músicas que me mandaram, faz-me voltar a Londres e às boas recordações de tempos idos.
- Senhora, podes pedir para pôr margarina e queijo no pão?
De novo um sobressalto. Percebo que a criança ainda se encontra ali.
- O.K., vou pedir. Mas depois vais ter de me deixar trabalhar, porque estou muito ocupada.
Chega a minha refeição e, com ela, o meu constrangimento. Faço o pedido do rapaz e o empregado pergunta-me se quero que o mande embora. A minha consciência impele-me a dizer que está tudo bem, que o deixe ficar e peço mais um prego no prato e um sumo de laranja igual ao meu.
Ele senta-se na minha frente e pergunta:
- Que estás a fazer?
- Estou a ler e-mails.
- O que são e-mails?
- São mensagens electrónicas, enviadas por pessoas, via internet.
Sabia que ele não ia perceber nada mas, para me livrar de mais perguntas, digo:
- É como se fosse uma carta. Só que via internet.
- O que é internet?
- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas: notícias, música, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo um pouco, este mundo virtual.
- E o que é virtual?
O sacana do puto não desarma. Resolvo dar-lhe uma explicação simplificada, na esperança de que não perceba nada, desista de fazer perguntas e me deixe comer descansadamente e sem remorsos.
- Virtual é uma coisa que imaginamos. É algo que não podemos ter nem tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostariamos de fazer. Criamos fantasias e transformamos o Mundo.
- Isso deve ser mesmo muito porreiro. Gostei!
- Então já percebeste o que quer dizer “virtual”?
- Sim. Eu também vivo nesse tal mundo virtual.
- Porquê? Tens computador em casa?
- Não. Mas o meu mundo é como esse que tu disseste... virtual. A minha mãe trabalha a dias e está o dia inteiro fora de casa. Chega muito tarde a casa, quase não a vejo. Eu cuido do meu irmão mais novo, que passa o dia a berrar com fome. Às vezes dou-lhe água para ele pensar que é sopa.
Tenho uma irmã mais velha que passa os dias a dormir e as noites fora de casa. A vizinha diz que ela anda a vender o corpo, mas eu não percebo, pois ela volta sempre com o corpo.
- E o teu pai? Que faz o teu pai?
- O meu pai está preso há muito tempo. Está numa cadeia do Norte e não podemos visitá-lo, porque não temos dinheiro para as viagens.
Mas eu imagino sempre que estamos todos juntos, em casa, como uma família, com muita comida, muitos brinquedos e que ando naquele colégio do Alto da Paiva. Gostava de ser médico, um dia. Isto é virtual, não é, senhora?
Não lhe respondi. Fechei o notebook. Dou por mim com aquele ardor nos olhos, que às vezes não consigo controlar, eu que até já deixei de chorar, há muitos anos atrás.
Em silêncio, aguardo que a criança devore a refeição. Pago a conta e dou-lhe o troco.
Retribui-me com o mais belo e sincero sorriso que já recebi em toda a minha vida.
- Obrigado, senhora. És uma gaja porreira!
Naquele preciso momento, tive consciência do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias.
Não cheguei a perguntar como se chamava aquele pequeno grande ser.
Entre o nada e o virtual, a realidade cruel rodeia-nos, de verdade, mas vamos sempre fazendo de conta que não a percebemos.

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