terça-feira, 15 de dezembro de 2009

DIAS DE TUDO


Em determinada altura da minha vida era raro o mês, quinzena, semana ou dia, que não tivesse casamentos, baptizados, velórios ou até divórcios.

Habituei-me a considerar todos esses momentos como parte integrante do meu estatuto de animal social, e a tirar partido deles, na aprendizagem que fiz sobre o teor dos apêgos e afectos.

A semana que passou, foi a semana dos velórios. Os pais e mães de alguns colegas e amigos, resolveram desistir de viver. Uns mais idosos, outros mais jovens, lá foram percorrendo o caminho que a todos espera, até à eternidade.

Nos vários velórios, foi ponto comum o facto de dizerem: "coitado, morreu no dia a seguir à filha ter vindo visitá-lo", ou "parece que estava à espera que o filho viesse do estrangeiro, para morrer em paz".

Fixei-me nesta particularidade, tão ouvida nos dias de hoje e veio-me logo à memória o Senhor Adalberto.

O Senhor Adalberto era um velhinho de oitenta e seis anos, muito culto, lúcido e simpático, que eu visitava no lar de terceira idade, onde estava hospedado e depois, mais tarde, no hospital onde esteve internado vários meses até morrer.

Tinha seis filhos e filhas espalhados por esse mundo fora, que nunca se interessaram pelo seu bem-estar.

Um dia confidenciou-me que um desses filhos até lhe batera, quando distribuiu, por todos eles, todos os seus bens e a herança deixada pela falecida mulher.

Já no seu leito de morte dizia-me: "Não queria, nada, morrer. Por fora sou um velho caquético, mas a minha cabeça diz-me que o meu espírito vive e sinto-me um jovem. Não queria, nada, morrer. Consegue-me isso?".

Eu ficava sempre embaraçada, sem resposta.

O tal dia chegou finalmente. O Senhor Adalberto agarrou-se à minha mão e disse-me, mais uma vez, que não queria morrer.

"Se pensam que eu estou a resistir por causa de querer ver este ou aquele filho ou familiar distantes, estão enganados. Simplesmente, eu não quero morrer. Quero viver por mim e para mim. É uma treta se pensarem que morri consolado por ver esta ou aquela pessoa que já não via há muito tempo".

Fechou os olhos e largou-me a mão, ao mesmo tempo que repetia: "quero viver!", contrariando a tal máxima funerária de que os moribundos aguardam sempre por alguém que lhes é próximo e que vive distante, para partirem em paz.

Fiquei com a certeza de que todos eles partem contrariados, embora nas mentes dos que lhes são próximos habite aquela leve sensação de dever cumprido, que apazigua as consciências, só porque chegaram a tempo de os ver sucumbir.

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