quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ESTÁ A CHEGAR O NATAL


E com ele as minhas ambicionadas férias até ao início do próximo ano.

Não é segredo para ninguém que não gosto do Natal. Nunca gostei desta quadra festiva, da mesma forma que odeio estar deitada a ouvir o vento a uivar nas árvores e a chuva a caír nos telhados, tamborilando uma música que não apetece cantar.

Sou do contra. Sempre fui do contra, embora não me considere uma pessoa difícil.

Quando oiço alguém dizer que gosta de ver a neve a caír, enquanto está sentado ao calor de uma lareira aconchegante, não consigo reprimir um sentimento que é um misto de repulsa e de indignação, porque aqueles que assim pensam, não querem saber se há pessoas a dormir e a viver nas ruas, debaixo das pontes, sem ter um fogo ou um agasalho que lhes faça sentir que também são filhos de Deus, do tal Deus elitista que não protege todos aqueles que necessitam Dele.

Por isso procuro sempre afastar-me o mais possível das convenções e viver a época de acordo com aquilo que penso e sinto.

Amanhã, por esta hora, partirei para passar o Natal na terra que me viu nascer.

Durante esta semana fui fazendo as malas, para não me esquecer de nada. Fui à FNAC comprar os três livros que vou levar para os próximos quinze dias. Um deles, do meu escritor preferido, António Lobo Antunes, "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?".

Claro que não resisti a lê-lo durante a noite passada. Comecei pela introdução, pensando que seria capaz de o largar, para continuar a lê-lo quando chegasse a Luanda. Mas foi mais forte do que eu.

Soberbo, simplesmente soberbo! De todo o melhor livro dele, até aos dias de hoje.

A partir de um verso de uma canção de Natal, "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?", a escrita de Lobo Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer nele, deixando-nos um vazio cá dentro que nos impede de continuar a leitura até conseguirmos encontrar-nos de novo.

As duas frases muitas vezes repetidas ao longo da trama, como se fossem um estribilho, o facto de ter dividido o livro em capítulos, de acordo com a evolução de uma tourada e aquele personagem de filho bastardo, de quem ninguém sabe o nome, que não pode ser apresentado às visitas, torna esta obra única de entre todos os livros do escritor.

Não trata o leitor por estúpido e ao apresentar-se desta forma mostra-nos a nós próprios, os nossos diálogos interiores com a consciência. Eu senti, a dada altura, que era uma das personagens.

Assim como Beckett construía a partir do nada, do corpo vazio, a escrita de Lobo Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer nele.

Neste livro, o Autor retrata-nos nos momentos de solidão, de silêncio, do escuro, a vida no seu estado puro. Mente, brinca e leva-nos ao sabor das palavras.

Adorei. Vou ter de comprar mais um livro para levar, porque, este, eu já o li.

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