domingo, 19 de setembro de 2010

SITA VALLES - A NOSSA JOANA D'ARC




" Em Portugal, poucos saberão quem foi Sita Valles, uma jovem revolucionária fuzilada há 33 anos, em Angola.

A sua memória continua viva entre as gerações de estudantes universitários que a conheceram e com ela privaram, no início dos anos 70, sobretudo nas Faculdades de Medicina de Lisboa e de Luanda.

Foi uma grande líder do movimento estudantil da época, que tive o grato prazer de conhecer.

Sita Valles teve uma vida muito breve (1951-1977), mas intensa.

Era uma humanista e desde que tomou consciência das injustiças do mundo, não mais deixou de ser uma activista política a quem todos reconheciam um grande espírito de solidariedade e de missão. Muito activa, quer na clandestinidade, quer em democracia, ela lutou sempre por uma sociedade melhor.

Nascida em Cabinda, quando o enclave ainda pertencia a Portugal, depois da independência, optou pela nacionalidade angolana.

O 25 de Abril de 1974 surpreendeu-a quando estudava Medicina em Lisboa. Movida pela paixão e pelo voluntarismo que a caracterizavam, regressou à que pensava ser a sua pátria, durante o então chamado Verão quente.

Em má hora o fez. Acabou por ser acusada, sem direito a defesa, de ser um dos cérebros da alegada tentativa de golpe de estado de 27 de Maio de 1977. Foi fuzilada juntamente com o seu marido Zé Van-Dunem e o activista Nito Alves, no dia 1 de Agosto desse ano. Agostinho Neto, o poeta, assinou a sua condenação e a ordem de fuzilamento.

Desde então, várias perguntas ficaram sem resposta.

Diz-se que Sita Valles, ou o que restava dela, foi fuzilada às cinco da manhã daquele dia, primeiro com um tiro em cada perna e depois um tiro em cada braço. Recusou ser vendada. O corpo caiu na vala comum previamente aberta, antes de desferido o disparo mortal. Um tractor aplainou depois o terreno.

Antes, e apesar de estar grávida, foi torturada e violada pelos homens da Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política do regime.

Diz-se também que a bela, elegante e inteligente comunista de origem goesa, se manteve rebelde até ao último momento. Dizia que não tinha medo e que quanto mais depressa a matassem, melhor. Ao recusar ser vendada, obrigou os atiradores do pelotão de fuzilamento, a enfrentarem o seu olhar, antes de dispararem.

A Sita Valles, militante do Partido Comunista em Portugal e do MPLA em Angola, é hoje um nome maldito para ambos os partidos e a sua vida quase um mistério em ambos os países. Acusada de ser um dos cérebros do chamado “golpe Nito Alves”, em 27 de Maio de 1977, seria presa em Luanda, violada e torturada e, três meses depois, sumariamente executada.

Ainda hoje não se sabe onde estão enterrados os restos mortais de Sita Valles, do marido, do seu irmão Ademar, assassinado em 1978, e de um número indeterminado de vítimas, entre 20 mil a 80 mil pessoas que desapareceram, incluindo muitos portugueses, um dos quais antigo ministro de Spínola.

Um cidadão angolano, recentemente falecido na margem sul, e que exercia, ao tempo, as funções de coveiro em Luanda, contou que Sita Valles e os companheiros de infortúnio, foram fuzilados contra o muro do cemitério novo de Luanda, sendo que alguns deles ainda estavam vivos,quando foram sepultados.

Sita Valles era uma católica fervorosa e continua a ser tabu no país que escolheu como seu, onde as circunstâncias da sua morte a transformaram num mito.

Antigos colegas, hoje médicos, recordam-na pela sua coragem e espírito destemido e abnegado. "

Em 1975, apesar de ser militante do PCP, decidiu regressar a Angola para ajudar o MPLA no conflito com a FNLA e a UNITA. Após a independência, o seu percurso começa a divergir até culminar nos macabros acontecimentos de Maio de 1977.

Deixou um filho bébé a quem chamou “Ernesto” em homenagem a “Che Guevara”, que é hoje um homem e reside em Lisboa com uma tia.

Que o Ernesto um dia exija saber toda a VERDADE e desmascare os algozes dos seus pais e tio. Olho por olho, dente por dente.

Para todos os Angolanos de bem, esta história brutal, tornou-se num mito de uma geração.

Descansa em Paz Sita Valles!

Um dia eles vão pagar.

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