sábado, 25 de setembro de 2010

UÉLÉLÉ NEGAGE



Ultimamente tenho-me lembrado imenso do Negage.

Foi no Negage que fui surpreendida pelo maior bife que já comi em toda a minha vida.

Angolana de Benguela, residente no Uíge, naquele dia fiz as delícias do dono de um restaurante e de alguns clientes, a maior parte militares, que viram na jovenzinha que eu era, na altura, uma oportunidade de dar azo ao seu sentido de humor e ao seu espírito marialva.

Ao sentar-me e perguntar o que seria o almoço, o dono do restaurante respondeu-me que só havia bife. Ora eu que gosto de bifes, encomendei um bife com batatas fritas. O Senhor olhou-me com ar de gozo e perguntou-me se eu era mesmo capaz de comer um bife inteiro.

Entendi que a pergunta teria um quê de brejeirice, mas como era e sou moçoila afoita, não me "descosi" e disse que sim, que era capaz de comer um bife inteiro. Por que não?

O que eu não sabia era que aquele bife do Negage era famoso em Angola inteira.

Aquilo não era um bife. Era quase um boi inteiro.

Mas eu não me desmanchei. Fiz de conta que não fui surpreendida e comi o bife todo, para admiração de todos os presentes, que achavam que eu iria enjeitar o desafio.

Tenho saudades do Negage.

Recordo com saudade o João Ferreira, figura incontornável da zona. Era um português degredado, que construiu um Império a pulso.

Andava sempre mal vestido, quase andrajoso e conta-se que um dia não o deixaram entrar num hotel em Luanda, por esse motivo. O "Ferreira do Negage", como era conhecido, foi saber a quem pertencia o Hotel, comprou-o e despediu o gerente e o recepcionista que o escorraçaram.

De outra vez, foi pedir um empréstimo ao BCA e o gerente, que não o conhecia, mandou chamar a polícia para o pôr fora do Banco. Ele identificou-se, o gerente ficou estarrecido e ele levantou o dinheiro todo que tinha naquele banco e fundou, ele próprio, o BCCI.

Apesar de rico, era uma pessoa muito afável e simples.

Hoje doi-me saber que aquilo que ele criou em Angola, foi completamente destruído.

Onde outrora havia fartura, campos cultivados e produtivos, hoje há fome, miséria, doença.

"Eles comem tudo e não deixam nada".

2 comentários:

M Carvas disse...

O texto é directo e conciso mas,daí à realidade vai um longo caminho.

Flor disse...

Está a referir-se à parte do Ferreira do Negage, não é?
Nunca tive que dizer do homem, embora saiba que tinha muitos ódios de estimação. A mim nunca me fez mal nenhum, nem à minha família, e cheguei a conhecer a sua faceta filantrópica, embora tivesse fama de "grunho".
Agora, por curiosidade, o seu apelido faz lembrar-me de alguém que morava em Carmona, compadre de um maluco da OPVDCA e da sua excelsa mulherzinha execrável, que tinha vários estabelecimentos de moveis e decoração. Sou amante de móveis antigos e com classe. Os dessas lojas, feitos em pau preto genuíno, faziam-me perder a cabeça e o dinheiro.

Cumprimentos.