sábado, 13 de novembro de 2010

O SENHOR DO ADEUS



Passa da meia-noite.

Cheguei há momentos a Lisboa, para passar o fim de semana, e senti a sua falta.

Dizem que era filho de gente abastada e que teve uma vida muito boa, que no final se tornou difícil e solitária, após o falecimento da mãe com quem vivia.

Mesmo assim, soube encontrar uma forma, que alguns classificaram de louca, de se sentir acompanhado e de fazer os outros felizes, apesar de ser dono de fortuna pessoal.

Tudo começou quando um dia acenou a alguém que lhe retribuiu a saudação, acenando e buzinando.

Gostava de comunicar através do aceno, esse gesto tão simples, que a maior parte de nós já não inclui nas boas práticas de socialização e humanização em comunidade.

Era a sua forma humana de dizer que o Mundo pode ser melhor se não ignorarmos o "outro".

O seu gesto, naquela esquina do Saldanha, ficará na memória de todos quantos lhe acenaram.

Muitas vezes à chuva e ao frio, João Manuel Serra andou pela cidade de Lisboa a acenar às pessoas, num gesto simples e desinteressado, pois acreditava que fazia as pessoas felizes.

Pela sua serena forma de estar, ele tornou-se uma referência da cidade e ficará para sempre na memória de todos quantos lhe retribuiram o aceno.

Estou triste. Olho para a esquina e imagino-o com os seus óculos de massa, os seus cabelos brancos e o seu sorriso aberto, a fazer um adeus só para mim. O seu último adeus.

Como lamento nunca ter parado o carro e falado com ele, para lhe dizer que o seu gesto me fazia sentir importante.

Podemos conhecer uma pessoa pelo efeito da sua ausência, pela forma do vazio que deixa atrás de si.

E este vazio que agora sinto, tem a forma de um sorriso contido num aceno.

Até sempre, João Serra.

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