terça-feira, 10 de maio de 2011

ACONTECE-ME CADA UMA!


Já dizia a minha amiga Izabel, com um "zê", que eu sou pródiga em atraír emplastros e situações do arco da velha, que não lembram nem ao diabo.

Diz ela que tal se deve à minha maneira de ser de angolana descontraída, com bom feitio, para quem está tudo bem, até um dia, quando a coisa fede, explode e já não há volta a dar. Aí viro bicho, fico impossível de aturar e posso até ser muito má.

Estava eu de regresso aos meus domínios nortenhos, após um belo fim de semana junto ao mar, quando resolvi entrar em Lisboa, para fazer umas compritas ali para os lados do Hotel Ritz, uma vez que vou ter um casamento brevemente e há por ali umas lojas dentro do meu estilo de roupa, que não são nada careiras.

Não sou moçoila de comprar nada contrafeito, muito menos aos chinocas e quejandos.

Prefiro os produtos nacionais e o comércio tradicional, pois temos boas lojas, bons texteis, bons costureiros, estilistas e troco facilmente uma carteira "Burberry" por uma "Cavalinho", sem qualquer pudor, porque não fica atrás das melhores marcas europeias.

Não ando nos sites que vendem, à descarada, "marcas" contrafeitas, a comprar produtos a um décimo do preço, só para fazer a figura bacôca de andar vestida de "marca", enquanto os legítimos criadores estão a ser altamente lesados por esses piratas da contrafacção, que não pagam impostos e ainda gozam o prato por haver tótós que alinham nessas transacções fajutas, pagas com Pay Pal.

Agora que já fiz a apologia do produto nacional e critiquei quem apoia semelhante barbaridade, vou contar a minha saga numa caixa multibanco da Rua da Artilharia Um, que ultimamente se transformou numa zona muito mal frequentada.

Estava eu a levantar cem euritos, para a viagem de regresso, quando oiço atrás de mim uma voz masculina que me pergunta:

- "Quanto levas?"

Concentrada que estava, a levantar o dinheiro, tive a estranha e desagradável sensação que iria ser assaltada por aquele sujeito perfumado, atraente, de meia idade, e tentei ganhar tempo, para pôr em prática tudo o que aprendi no IKMA do Porto, com o meu Mestre Victor Martins, do melhor que há no país, em Krav Maga.

O pensamento correu veloz, na selecção mental de todos os objectos que tinha em meu poder e que poderiam servir-me de arma de defesa. Desde a chave do carro, a uma esferográfica pontiaguda "Cross", até aos meus saltos altos, tudo estava em alerta máximo.

Para ganhar tempo, antes de lhe dar uma pisadela no dedo grande do pé, um pontapé nos tintins, ou enfiar-lhe a esferográfica e o cartão multibanco num sitío qualquer, resolvi responder-lhe.

- "Cem euros".

- "Levas caro, tu. Cem euros é muita massa. Mas és boa, muito boa mesmo".

Dizendo isto, afastou-se deixando-me em estado de choque e na maior perplexidade de que tenho memória.

Eu a pensar que ele me queria assaltar e levar-me os cem euros e ele a armar-se em parvo e a confundir-me com uma das "micas" que abundam naquela zona de Lisboa.

Fui trazida à realidade pela voz irritante que saía da máquina ATM e que não se calava, pedindo-me que retirasse o meu dinheiro. "Retire o seu dinheiro", disse-me ela, vezes sem conta.

Passado o choque inicial, subsistiu o tal bom feitio que a Izabel sempre disse que eu tenho.

Veio-me à memória aquela canção do Herman José "És tão boa!", que ele cantou com a Odete Santos do PCP. Fui comprar o CD e vim de Lisboa ao Porto, muito divertida, a cantar também.

Bem lá no fundo, o homem não foi mal educado. Eu é que não devia estar ali. Quem me mandou estar àquela hora naquele sítio?

E isto cá para nós, até que faz bem à auto-estima de uma "gaija", ouvir assim uns "piropos", de vez em quando.

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