sábado, 21 de maio de 2011

GERAÇÕES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


Ontem, no jantar de confraternização, organizado todos os anos por aqueles que fazem o favor de ser meus amigos desde os tempos de Faculdade, dizia-me um deles, o mais velho do nosso grupo, a quem carinhosamente tratamos por "Avô":

- “Geração à rasca foi a minha. Foi uma geração que viveu num país vazio de gente por causa da emigração e da guerra colonial, onde era proibido ser diferente ou pensar que todos deveriam ter acesso à saúde, ao ensino e à segurança social.

Uma Geração de opiniões censuradas a lápis azul. De mulheres com poucos direitos, mas de homens cheios deles. De mulheres grávidas sem assistência e de crianças analfabetas. A mortalidade infantil, naquele tempo, era de 44,9%. Hoje é de 3,6%.

Uma Geração que viveu num país onde o casamento era para toda a vida, o divórcio proibido, as uniões de facto eram pecado mortal e ter filhos, sem casar, uma desonra.

Hoje, o conceito de família mudou. Há casados, divorciados, recasados, em união de facto, casais homossexuais, monoparentais, sem filhos por opção, mães solteiras porque sim, pais biológicos, etc..

A mulher era considerada, perante a lei, um ser inferior. A sociedade subjugava-a ao marido, o chefe de família, que tinha o direito de não autorizar a sua saída do país e que podia, sem permissão, ler-lhe a correspondência e decidir por ela.

Quem usasse isqueiro tinha de obter uma licença para usá-lo, andar descalço dava direito a multa, etc..
Até a pobre bicicleta obrigava a uma licença de circulação.

Os televisores daquele tempo (que só havia nos cafés) eram a preto e branco, uns autênticos caixotes, em que se colocava um filtro colorido, no sentido de obter melhores imagens, e que apenas conseguia transformar os locutores em "zombies" desfocados.
Hoje, existem plasmas, LCD ou Tv com LEDs, acessíveis a toda a população.

Na rádio ouviam-se apenas 3 estações, a oficial Emissora Nacional, a católica Rádio Renascença e o inovador Rádio Clube Português. Não tínhamos os Gato Fedorento, só ouvíamos “Os Parodiantes de Lisboa”, os humoristas da época.
Havia serões para trabalhadores todos os sábados, na Emissora Nacional, agora há o Toni Carreira e o filho que enchem pavilhões quase todos os meses. A Lady Gaga vem cantar a Portugal e o Pavilhão Atlântico fica a abarrotar. Os U2, deram um concerto em Coimbra no ano passado, e um ano antes os bilhetes esgotaram.

As Docas eram para estivadores, e o Cais do Sodré para marujos. Hoje são para o JET 7que consome diariamente grandes quantidades de bebidas, e não só.

O Bairro Alto era para a malta ir às meninas, e para os boémios. Éramos a geração das tascas, do vinho tinto, das casas de fado e das “boites” de fama duvidosa. Discotecas eram as lojas que vendiam discos, como a Valentim de Carvalho, a Vadeca ou a Sasseti, e os discos eram de vinil.

As Redes Sociais chamavam-se Aerogramas, cartas que na nossa juventude enviávamos lá da guerra aos pais, noivas, namoradas, madrinhas de guerra, ou amigos que estavam por cá.
Agora vivem na Internet, da socialização do Facebook e afins, de SMS e E-Mails mal escritos, cheios de "k" e vazios de conteúdo.

As viagens “Low-Cost” na nossa Geração eram feitas em Fiat 600, ou então nas viagens para as antigas colónias para combater o "inimigo".
Quem não se lembra dos célebres Niassa, do Timor, do Quanza, do Índia entre outros, tenebrosos navios em que, quando embarcávamos, só tínhamos uma certeza... ...a viagem de ida.

Quer a viagem fosse para Angola, Moçambique ou Guiné, esses eram os nossos “cruzeiros”.

Ginásios? Só nas colectividades. Os SPA’S chamavam-se Termas e só serviam doentes.

Coca-Cola e Pepsi, eram proibidas. O "Botas", como era conhecido o Salazar, não nos deixava beber esses líquidos. Bebíamos, laranjada, gasosa e pirolito.

Recordo que na minha geração o País, tal como as fotografias, era a preto e branco.

A minha geração sim, viveu à rasca. Quantas vezes o meu almoço era uma laranja (quando havia), e a sopa que davam na escola. E, ao jantar, uma lata de sardinhas ou de atum em conserva, com umas batatas cozidas e cebola, que dava para 5 pessoas.

Na escola, quando terminei o antigo 7ºano do Liceu, recebi um beijo dos meus pais, o que me agradou imenso, pois não tinham mais nada para me dar. Hoje vão festejar os fins dos cursos, para fora do país, em grupos organizados, para comemorar, tudo pago pelos paizinhos.

Era o tempo em que só o filho do doutor estudava para doutor, o do engenheiro para engenheiro.

Têm brutos carros, Ipad’s, Iphones, PC’s, e tudo em quantidade. Pago pela geração que hoje tem a culpa de tudo!!!

Tiram cursos com notas "rascas", só para ter um diploma. Só querem trabalhar começando por cima.

Afinal qual é a geração à rasca?”, perguntou ele.

Geração à rasca, continuaremos a ser todos nós, respondi-lhe eu, se insistirmos e formos contumazes em suportar “políticos” de merda, como os que nos têm des(governado) desde o 25 de Abril de 1974.

O “remédio” estará nas mãos de cada um de nós, no próximo dia 5 de Junho.

Por este andar, não vai tardar muito que muitas pessoas nem uma laranja ou uma lata de conserva terão, para comer.

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