quinta-feira, 1 de setembro de 2011

DIAS DE RAIVA


Por estes dias retomei a minha função de voluntária num hospital perto de mim.

Tenho acompanhado o caso de um idoso de oitenta e muitos anos, quase moribundo, cheio de dores, que foi operado à próstata, apesar de estar com uma anemia brutal e de os médicos não terem tido em consideração que também tem um pacemaker instalado, o que desaconselharia totalmente a intervenção cirúrgica, pelo menos neste momento de tão débil condição. Merda de hospital, de médicos e de pessoal.

Para completar o cenário, o velhote é Padre e tem vários sobrinhos candidatos a uma choruda herança, segundo eles próprios me disseram. Um deles não engana ninguém, com o seu ar de chico-gosma à espera que o homem vá desta para melhor. Pela conversa, é o "administrador" dos bens do tio e já foi adiantando aos outros candidatos, que esse facto vai pesar e que tem custos. Lavar e levar roupa lavada, fazer visitas, cuidar da casa e dos animais de estimação do doente, é coisa que também não é feita à borla e tem os seus custos, porque a gasolina está cara.

Fiquei enojada.

Uma das sobrinhas teve a lata de me dizer que tinha acabado as férias no Algarve, ia trabalhar no dia seguinte e que só podia ir naquele dia visitar o tio. Descargo de consciência, pensei eu.

Mas que grandes filhos da puta, desabafei com os meus botões.

Hoje, quando me despedi do doente, antes de ser posto em coma induzido, pela gravidade do seu estado, este perguntou-me por que me ia embora e se não podia ficar ali, com ele, mais algum tempo. Apertou-me uma das mãos, com tal força, que tive dificuldade em me libertar.

Prometi-lhe que voltava amanhã, e saí do hospital a correr.

Cá fora, os cangalheiros já estavam de "dente afiado", ao doente do piso 7, cama 783.

Dei por mim sentada à beira mar, no lugar do costume, inerte, sentindo raiva e uma tristeza infinitas.

Mas que grandes filhos da puta!

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