Ultimamente tenho dedicado uma grande parte do meu tempo disponível, às arrumações.
Se há sítios que gosto pouco de frequentar, são os sótãos da infância, onde aprendi a guardar memórias e a criar histórias sobre os objectos do passado.
Mas este sótão é diferente. Guarda as recordações de algumas gerações da minha família. Cada uma das caixas tem escrito o nome do respectivo dono ou dona dos objectos ali depositados e a data.
Por curiosidade, abri uma delas, datada de finais dos anos 50, do século XX, a única que não tinha o nome escrito.
Senti-me como se tivesse aberto uma sepultura. Lá dentro estavam vários brinquedos de lata, duas bonecas sem olhos, vários carrinhos, uma fisga muito antiga, cinco piões e vários saquinhos de pano com berlindes coloridos.
Fui tirando os objectos um a um, até que encontrei uma velha caderneta de cromos dos famosos rebuçados Victória.
Recordo-me de ouvir contar que essas cadernetas eram preenchidas com os envólucros transparentes dos rebuçados, que tinham como tema várias espécies de animais e que os mais difíceis de saír eram o bacalhau, a cobaia e o cabrito. Diziam as pessoas desse tempo que cinco rebuçados custavam um tostão.
Desfolhei-a e tive a agradável surpresa de constatar que quem quer que fosse que tenha feito aquela colecção, conseguiu os cromos todos. A caderneta está completa, em boas condições e transmite, a quem a manuseia, qualquer coisa de "naif", de puro.
Hoje já não há ninguém que coleccione cromos de animais, muito menos cromos que saiam em rebuçados de tostão.



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