segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"TROVAS DE UM TEMPO QUE PASSA"




Hoje, em Lisboa, reencontrei alguém que já não via há uns bons anos, desde os tempos de um colégio que frequentei, em Portugal, na Figueira da Foz, durante o ano em que o meu pai esteve na Universidade de Coimbra a fazer as "pedagógicas". Acho que era assim que se chamava naquele tempo, o equivalente hoje ao Mestrado.

Era um Colégio com vista para o mar, e onde havia um macaco junto ao portão, que mordia toda a gente que se aproximasse dele.

Mas o sacana do macaco, que servia de guarda ao escapulanço da malta, quando queriamos ir para a esplanada da praia, se algum professor faltava, era mesmo macaco, na verdadeira acepção da palavra. Só mordia quem não lhe atirasse com uma peça de fruta ou qualquer outra gulodice que lhe agradasse.

Eu como lhe conhecia a manha, de cada vez que tinha "furo" e queria ir ver o mar, ia à cozinheira do colégio e com o ar mais cândido deste mundo, dizia-lhe que a sopa dela era a melhor do mundo, o que me valia logo uma mão cheia de rebuçados do tipo da Régua, feitos por ela, que eu ia logo a correr dar ao macaco, para me escapulir.

"Estás na mesma", disse-me essa antiga colega. "E a prova é que te reconheci logo. Não mudaste nada. Continuas com o mesmo olhar de reguila".

Bem, pensei eu, estou metida num molho de bróculos, sem me lembrar do nome, nem quem era a pessoa que assim me abordava, o que, diga-se de passagem, foi extremamente deselegante da minha parte, pois a moçoila estava mesmo contente por me ver.

Palavra puxa palavra e cheguei à conclusão que tinhamos sido as melhores amigas durante aquele ano em que andei naquele colégio. Como eu sou canhota e tinha uma certa dificuldade nas aulas de lavores e de trabalhos manuais, porque faço os bordados e o resto, tudo ao contrário, a boa da Adelaide fazia-os por mim, sem que a professora desse por ela, porque eu ainda sou do tempo em que os professores davam grandes cacetadas e ponteiradas nas mãos de quem se atrevesse a trabalhar com a "canhota". Nós os esquerdinos eramos considerados, naquele tempo, "almas do demo". Em contrapartida eu fazia-lhe os trabalhos de francês.

Fartámo-nos de rir só de imaginar as partidas que pregávamos ao professor de canto coral e à freira de religião e moral. Tudo com o maior dos respeitos, está claro. Nada do que se passa agora em que os professores levam enxertos de porrada da família inteira de um aluno, sem que ninguém faça nada. Coitadinho do aluno, fofinho, que precisa de ir ao psicólogo, enquanto neste país, o professor pode ir para a puta que o pariu, que ninguém se importa.
Gostei de te rever Adelaide.


Desculpa não te ter reconhecido de imediato.
Obrigada por nunca me teres denunciado, quando eu escondia os véus e os sapatos das nossas colegas, antes das missas de Domingo.






Sem comentários: