sábado, 22 de dezembro de 2012

MAIS UM NATAL


Não fiquem admirados, os meus amigos do peito, aqueles que eu considero como pertencendo à minha família, de eu, este ano, não ter enviado os habituais postais de Boas Festas e Feliz Natal.

Todos vocês, principalmente aqueles que me conhecem muito bem, sabem que  é uma época que abomino desde criança, pois acho que, a maior parte das pessoas, não celebra o nascimento de Jesus, mas dá asas, sim, a  uma desenfreada sede consumista, que serve de alibi e de móbil, para  ter mais este ou aquele pertence, mais esta ou aquela vestimenta, mais esta ou aquela coisa surpérflua, que acabarão por, mais dia menos dia, ficarem  esquecidos, num canto qualquer ou até ir parar ao lixo, ao arrepio de todos aqueles que não têm nada para dar, nem para receber.

Vem isto a propósito de eu saber que em Portugal, muitas pessoas não vão ter nada que comer na noite de 24 de Dezembro de 2012. E não vão ter nada que comer, porque já houve umas quantas aves rapinantes, de poleiro e gaiola dourados,  que já se encarregaram de o fazer,  desde há dez anos a esta parte.

Ontem, no local onde trabalho, um idoso veio desejar-me que tivesse um "bom bacalhau". Eu sorri e disse-lhe que nunca apreciei bacalhau, mas que lhe retribuia o voto com todo o prazer e que o comesse com fartura e tivesse muita saude. Foi então que reparei que os olhos do homem se marejaram de lágrimas, quando me respondeu: "Só tenho duzentos e setenta euros de reforma e nos meus Natais nunca há bacalhau, porque está muito caro e,  ou se come bacalhau, ou se fica a dever na farmácia".

Senti um nó na garganta e odiei-me naquele preciso momento.

Meti-me no carro e preparava-me para regressar a casa, quando vejo uma mulher jovem, minha conhecida, trabalhadora de uma fábrica de móveis, que vinha pelo caminho a chorar copiosamente.

Indaguei o motivo de tanto desespero e fiquei a saber que tem quatro meses de salários em atraso, e que a patroa tinha prometido que, ontem,  lhes pagaria pelo menos dois dos salários em falta,  o que não cumpriu. Aquela alma vinha desesperada,  porque não sabia o que fazer, já que o marido também se encontra desempregado. A preocupação dela é que nem um copo de leite terá para dar aos dois filhos, na próxima noite de Consoada.

Por isso odeio o Natal. Não o Natal que representa o nascimento de Jesus, mas sim o Natal que demonstra o egoísmo humano, a traição, a falsidade e a falta de escrúpulos de alguns seres humanos, se é que se pode chamar humano a alguém que tem estas formas de agir, para com o seu semelhante.

Daqui faço um apelo: Partilhem com o Vosso semelhante o muito ou o pouco que tiverem nas Vossas mesas de Natal, dando àqueles que nada têm neste Mundo, uma réstea de esperança, uma Luz. Uma fatia de Bolo-rei, um pedaço de batatas e bacalhau, ou até um chá quente com umas bolachas.

No próximo dia 24 de Dezembro de 2012, como é meu apanágio e de mais meia dúzia de carolas, vamos andar pelas ruas da minha cidade, a distribuír  uma modesta Ceia de Natal a todos aqueles que vivem na rua, porque as circunstâncias da vida a isso os obrigaram.

O Natal morreu.

Sejamos solidários.




3 comentários:

Magus Silva disse...

como eu gosto dos seus cotundentes comentários, exceptuando aqueles termos (possivelmente de propósito), apelando ao bregeiro.
Por mim, dispensava tais termos e nem me parece que as críticas deixariam de ser incisivas, sem eles.
Mas, que sou eu para lençar a primeira pedra?
Parabens.

Flor disse...

Não tem nada que pedir desculpa.

Ainda vivemos num país em que a liberdade de expressão é permitida tanto aos "brejeiros" como aos "outros".

E a nossa língua é tão bela e tem um vernáculo tão contundente, que eu não resisto.

Obrigada por ter a pachorra de me ler e comentar.

José Loureiro disse...

Mais um Natal se passou.
O que trouxe, o que deixou?

Algum sonho e fantasia,
resmas de papel d'embrulho,
colest'rol e muita azia,
e grandes montes d'entulho,

cassetes com baboseiras,
um Nicoláu importado,
arremedos de Janeiras,
Luso Presépio ignorado.

Requiem pela tradição,
p'lo Natal em seu caixão.