Ao serão de Sábado passado, fui completamente surpreendida
por um desafio lançado por um daqueles Amigos meio filósofo, meio da onça, que
acha que por eu ser demasiado profissional, demasiado racional e dedicada, teria de ser forçosamente desprendida e incapaz desse sentimento profundo, a que os românticos
chamam o verdadeiro “Amor”.
“Fala-me de amor e daquilo que entendes por alma gémea”, pediu ele .
“Estás a esticar-te”, pensei
eu com os meus “botões”.
Socorri-me da mitologia, de Zeus, Cronos, do “Banquete” de Platão, Aristófanes e da
vingança de Gaia, para justificar essa coisa da “alma gémea”, cujo conceito
filosófico emerge do nascimento dos andrógenos, essas insolentes criaturas que
o grande Zeus deixou viver, divididos, para torná-los mais humildes e fracos e assim
diminuir o seu orgulho .
E porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas
imprevisíveis, de emoções paradoxais que
se enfrentam em sentimentos opostos, socorri-me de Dante e de Camões que lidou com a incerteza que nasce com o desejo pela pessoa amada.
“Isso é o que está nos livros”, voltou o meu Amigo à carga.
“Eu quero é saber qual a tua perspectiva sobre o assunto”.
Foda-se, queres mesmo
saber como pode ser o amor contraditório?
“Isso mesmo!”.
Kaneko, quem ama obedece sem ser ordenado, cumpre sem ser
requisitado, aceita sem ser forçado.
Tudo por culpa de um grupo de neurónios localizados em
determinada parte do cérebro, que começa
a produzir dopamina que se espalha pela “mioleira” e nos dá aquela energia,
possessividade, desejo, obsessão e motivação para ir ter com a tal pessoa que
passa a ser alguém especial.
Depois vêm as
complicações. Ficamos em êxtase quando as coisas correm bem e desesperamos
quando correm mal. Sentimos dependência emocional e física mas o que
queremos mesmo é a união emocional. E muitas vezes tem acontecido aquilo a que se chama pensamento intrusivo, porque não conseguimos deixar de pensar naquela pessoa. É como se tivesse acampado na nossa cabeça.
O problema maior é que também podemos ter sentimentos de
ligação a mais de uma pessoa e podemos ter desejos sexuais por várias, apesar
de nos dizermos apaixonados só por
determinada pessoa.
Devido à natureza humana, podemos ter sentimentos de amor romântico por duas pessoas
mas o que vai acontecer, a determinada altura, é que acabaremos por nos virar apenas para uma
e quem disser que está loucamente apaixonado por duas
pessoas ao mesmo tempo, é certo e sabido que não está apaixonado por nenhuma
delas.
Não se consegue “saborear” completamente dois amores em simultâneo, porque não se trata apenas de
união sexual, mas de algo mais profundo que a alma de um, quer da alma do outro, como as reminiscências, essas memórias tão sublimes
quanto os instantes que as originaram.
Mas a realidade é que vivemos no planeta Terra, sujeitos às
mudanças, aos humores e ao Deus do Tempo. Somos finitos, enrugamos,
envelhecemos, e a perfeição esvai –se com o tempo.
Contudo, isso não significa necessariamente o fim do Amor. Daí a
necessidade de se ter maturidade suficiente para cultivar
o Amor, não somente físico, mas
sobretudo da Alma.
É certo que o Amor também acaba como começou.
Do nada.
Quando o Amor acaba, o melhor é seguir em frente e recomeçar
.
Porque o Amor não mata.



2 comentários:
Sim Senhor, surpreendeu-me.
Quem diria, hein?
Não sei porquê.
Eu sou um "vulcão" que tem discernimento suficiente para não se meter em "funduras" (risos).
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