domingo, 27 de abril de 2014

"FALA-ME DE AMOR"




Ao serão de Sábado passado, fui completamente surpreendida por um desafio lançado por um daqueles Amigos meio filósofo, meio da onça, que acha que por eu ser demasiado profissional, demasiado racional e dedicada,  teria de ser forçosamente  desprendida e incapaz desse  sentimento profundo, a que os românticos chamam o verdadeiro “Amor”.

“Fala-me de amor e daquilo que entendes por alma gémea”,  pediu ele .

“Estás a esticar-te”, pensei  eu com os meus “botões”.

Socorri-me da mitologia, de Zeus, Cronos,  do “Banquete” de Platão, Aristófanes e da vingança de Gaia, para justificar essa coisa da “alma gémea”, cujo conceito filosófico emerge do nascimento dos andrógenos, essas insolentes criaturas que o grande Zeus deixou viver, divididos,  para torná-los mais humildes e fracos e assim diminuir o seu orgulho .

E porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis, de emoções paradoxais  que se enfrentam em sentimentos opostos, socorri-me de Dante e de Camões que  lidou com a incerteza  que nasce com o desejo pela pessoa amada.

“Isso é o que está nos livros”, voltou o meu Amigo à carga. “Eu quero é saber qual a tua perspectiva sobre o assunto”.

Foda-se, queres  mesmo saber como pode ser o amor contraditório?

“Isso mesmo!”.

Kaneko, quem ama obedece sem ser ordenado, cumpre sem ser requisitado, aceita sem ser forçado.

Tudo por culpa de um grupo de neurónios localizados em determinada parte do cérebro, que  começa a produzir dopamina que se espalha pela “mioleira” e nos dá aquela energia, possessividade, desejo, obsessão e motivação para ir ter com a tal pessoa que passa a ser alguém especial.

 Depois vêm as complicações. Ficamos em êxtase quando as coisas correm bem e desesperamos quando correm mal. Sentimos dependência emocional e física mas o que  queremos mesmo é a união emocional. E muitas vezes tem acontecido  aquilo a que se chama pensamento intrusivo,  porque  não conseguimos deixar de pensar naquela  pessoa. É como se tivesse  acampado na nossa cabeça.

O problema maior é que também podemos ter sentimentos de ligação a mais de uma pessoa e podemos ter desejos sexuais por várias, apesar de nos dizermos apaixonados só  por determinada pessoa.

Devido à natureza humana, podemos  ter  sentimentos de amor romântico por duas pessoas mas o que vai acontecer, a determinada altura,  é que acabaremos por nos virar apenas para uma   e quem disser  que está loucamente apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo, é certo e sabido que não está apaixonado por nenhuma delas.  

Não se consegue “saborear”  completamente dois amores  em simultâneo, porque não se trata apenas de união sexual, mas de algo mais profundo que a alma de um,  quer da alma do outro, como as  reminiscências, essas memórias tão sublimes quanto os instantes que as originaram.

Mas a realidade é que vivemos no planeta Terra, sujeitos às mudanças, aos humores e ao Deus do Tempo.  Somos finitos, enrugamos, envelhecemos, e a perfeição esvai –se com o tempo.

Contudo, isso não significa necessariamente o fim do Amor. Daí a necessidade de se ter maturidade suficiente  para  cultivar o Amor, não somente físico, mas sobretudo da Alma.


É certo que o Amor também acaba como começou.

Do nada.

Quando o Amor acaba, o melhor é seguir em frente e recomeçar .


Porque o Amor não mata.

2 comentários:

Anónimo disse...

Sim Senhor, surpreendeu-me.
Quem diria, hein?

Flor disse...

Não sei porquê.

Eu sou um "vulcão" que tem discernimento suficiente para não se meter em "funduras" (risos).