quarta-feira, 28 de maio de 2014

O JANTAR


Já estava a imaginar que teria de instalar, em casa, um elevador de escadas "Egiro" e comprar um veículo da mesma marca, para poder deslocar-me nas redondezas mas, felizmente, o médico que consultei ontem, foi de opinião que nem imobilidade nem cirurgia ao pé, contrariamente ao que me tinha sido diagnosticado inicialmente.

Eu sabia!

A única coisa boa que tem o FCP, é o ortopedista.

Por isso, amanhã vou lá estar, no concerto, a ouvir o velho "bocas" e abanar o capacete, como se fosse o último dia da minha vida.

O meu Bizinho, ontem à noite, veio tocar-me à campainha, ainda não eram dez horas, queixando-se que já passava da meia-noite e eu tinha a música muito alta. Foi entrando, como quem não quer a coisa, "deitando o olho" de mansinho às minhas três convidadas.

- "Vizinha, por que é que as suas amigas têm todas um barrete e um pano da loiça na cabeça?", cuscou.

Fiquei surpreendida. Juro que nunca tinha olhado a coisa por esse prisma. As moçoilas são assistentes de bordo e estavam fardadas a preceito. Este meu "Bizinho" é o máximo.

- "Bizinho", não vê que é uma farda de uma companhia aérea?

Nem me respondeu. Foi andando em direcção à cozinha, onde se pôs a destapar os tachos e as panelas.

- "Vizinha, não tem nada que se trinque? Apetecia-me algo."

Mau mau, Maria. Isto traz água no bico, pensei eu.

- Mas o Bizinho veio para eu parar com a música, ou veio para jantar? Sirva-se do que quiser mas depois vamos à cave ver os livros que disse que me ajudava a catalogar.

Pensava que a ameaça ia surtir efeito, mas qual quê? Apranchou-se ao caldo verde e aos carapaus fritos com arroz de feijão, como se não houvesse amanhã. Lá pus outro prato na mesa e convidei-o para a janta.

Até que foi muito agradável e um serão bem passado, com o meu Bizinho e as minhas amigas. Ficou surpreendido por eu dizer que adorava pataniscas de bacalhau, peixinhos da horta com arroz de ervilhas e chocos com tinta. Fez-me prometer que ia aceitar o convite dele para almoçar no Joaquim dos Petiscos. Fiz-me de esquisita, mas aceitei logo antes que ele se arrependesse do convite e mudasse de ideias. É que eu adoro comer no Joaquim dos Petiscos.

Depois de uma noite muito animada, de cantorias e conversa até de madrugada, o meu Bizinho despediu-se agradecendo o jantar. Já passava da uma da manhã.

- "Vizinha, já reparou nas belas rosas que tem no seu jardim?", atirou, nada a propósito, à laia de despedida.

Eu sabia que o meu Bizinho é um coração de manteiga que não suporta despedidas.

- Bizinho, estou a pensar em fazer uma "tatuage" na nalga. Que pensa disso?, respondi-lhe eu.

- "Você é mesmo doida, Vizinha! Tem algum jeito tatuar uma rosa no rabo?".

O meu Bizinho é um "must"!

Adivinha-me os pensamentos.










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